Identidade? Cuidado, você pode nem mais saber quem você realmente é

 

Não sei se com você também é assim, mas pelos na minha família sempre que junta uma turminha a última geração vira assunto.

Não dá pra negar, a nostalgia é uma delícia né… leve, colorida, acolhedora. Mas ao mesmo tempo – e esse é seu lado que menos pessoas veem – é também perigosa. E duplamente perigosa.

Primeiro porque não tem nada mais fácil do que fugir de quem somos hoje e dos obstáculos que isso nos impõe simplesmente nos apegando a imagem que crescemos ouvindo que é o que nos define – inclusive, foi passando por isso que me veio toda a reflexão que gerou esse texto.

E segundo, porque essa imagem nostálgica (e nosso apego a ela) cria barreiras e dificulta o crescimento. Dificulta estarmos sempre querendo atualizar nossa própria identidade, nos atualizar de nós mesmos.

Dia desses, depois de receber um feedback sobre a Marina de hoje, eu me peguei pensando “Ah, mas eu sempre fui assim, faz parte da minha essência, da minha naturalidade. Essa é a Marina”.

Mas por sorte logo a chavinha virou, “WHAT, Marina?”. E daí quem eu sempre fui de um ou de outro jeito? Hoje eu tento sempre pensar assim… considero o que passou, mas me importa apenas saber como isso me influencia hoje: deleto ou modelo?

Porque mora aí o perigo da nostalgia… ficar olhando muito lá pra trás e esquecer de olhar para o momento. Se fixar nessa imagem nostálgica e, aos poucos, nem mais se identificar no seu atual contexto. Olhar no espelho e ficar confuso com o que vê.

É fácil e cômodo nos prendermos ao que já fomos, não necessariamente quando criança, basta que seja antes de hoje. É fácil porque se desprender disso, ao mesmo tempo que nos apresenta a evolução, nos apresenta o novo e desconhecido, o incerto e o desafio. Exige que estejamos a todo momento nos renovando… sendo uma metamorfose ambulante.

E o que contribui pra isso é a falsa ideia geral de que nossa identidade é algo fixo, que nos é dado uma vez e nos pertence pra sempre.

Mas não. Sua identidade é uma construção contínua, é algo que deve mudar todos os dias, até seu último dia.

Muitos dos elementos que compõem hoje a nossa identidade não estão com a gente desde que nascemos. E mesmo aqueles que estão não são imutáveis.

O seu sexo é determinado desde o seu nascimento, mas o que isso significa? Depende. Não é a mesma coisa nascer mulher no Brasil ou na Arábia Saudita, por exemplo. Portanto, mesmo características inatas sofrem influência do ambiente social. Elas existem de um jeito, mas podem receber muitos outros significados.

E é assim, por um lado temos o ambiente e as pessoas ao nosso redor influenciando quem somos e quem vamos querer ser. E por outro temos nós mesmos, nossa autoconsciência e nossas escolhas.

O tempo todo encontramos bifurcações na vida e temos que escolher entre caminhos prazerosos e dolorosos, fáceis ou cheio de obstáculos, neutros ou super recompensadores. E concorda que se você ficar sempre tomando suas decisões de acordo com quem você já foi você não vai conseguir ir muito longe?

Se se isso é perigoso por um lado, é lindo por outro, porque é o que te permite ser quem você quiser, independente de quem você já foi e do que entende que inicialmente era sua essência.

Isso é um processo, que acontece aos poucos e exige investimento diário. E aí, quando você deixa de lado todo esse seu poder e responsabilidade, quando segue se desatualizando de si mesmo, sendo guiado por uma imagem nostálgica que nem cabe mais em você, é comum vir a crise de identidade.

Muitas vezes demoramos a parcebê-la porque ela vem camuflada… é a crise no trabalho, na família, nos relacionamentos…

Tudo parece ficar mais difícil, as coisas parecem não se encaixar. Do nada você sente que não consegue mais se adaptar.

Isso acontece demais nos relacionamentos, ainda mais evidente nos que já duram anos e anos, porque neles existe uma imagem muito consolidada de si próprio e do outro.

E se não há uma constante renovação de ambas as partes, uma hora racha e um não consegue mais lidar com o outro. E aí a desculpa é que desgastou, afinal, sempre deu certo sendo assim né?!

Muitas vezes esse é o sinal de que você nem sabe mais quem você é. Que se perdeu e entrou na zona cinza… sem cor, sem brilho e sem arte.

Antes de hoje você era quem você podia ser na ocasião, partindo dos recursos que tinha para agir, se expressar e se relacionar. Se hoje você tem muito mais elementos para ser no mundo, necessariamente toda sua configuração tem que mudar e acompanhar isso.

Se suas possibilidades mudam, suas perspectivas mudam, seus sonhos e desejos mudam, o que você pensa ser seu papel no mundo pode mudar…. e ao mesmo tempo, acompanhando esse ritmo, mudam sua identidade e que chamamos de autenticidade.

Percebe isso? Consegue enxergar o quanto é óbvio que, mesmo que tenhamos sido crianças cheias de personalidade, hoje isso pouco importa? Hoje temos que ser MUITO mais do que isso, sempre mudando e recriando?

Se um dia essa foi a sua busca, pode desapegar da tentativa de se definir. Você tem apenas que se comprometer com seus desejos mais profundos, com o que você realmente quer, pra hoje e pro futuro, independente de quão louco isso possa parecer e da frequência com que mude.

A mudança e a inconstância são ajustes. São sinônimos de adaptação. De evolução.

E a única coisa que importa é que tudo isso esteja de acordo com o seu combustível… com o que te move, te faz sentir inteiro, atual consigo mesmo.

E o ponto é que você não precisa viver aquela sensação de que está sendo engolido pelo mundo, não precisa se perder de si para começar a se preocupar em se (re)construir.

Temos que nos reconstruir diariamente. E essa construção começa na identificação do seu combustível (que é um hoje e pode perfeitamente ser outro amanhã), em saber exatamente porque você faz cada coisa que faz. Isso é ter identidade, essência, autenticidade… ser atualizado de si mesmo e honrar sua própria metamorfose.

O Gabriel sempre teve esses desprendimento em relação ao que passou e ao que ele foi. Confesso que por um bom tempo eu achei estranho, porque meu apego a minha imagem nostálgica era muito forte.

Vire e mexe ele me diz (quando sente a necessidade de me reforçar isso) que já nem se reconhece a um ano atrás, e que espera que daqui um ano ele tenha essa mesma sensação.

Insensibilidade? Não. Comprometimento? Sim. Uma coisa leva a outra e tudo que passou importa, tem valor, mas não tem mais papel. E quando você tem esse verdadeiro comprometimento consigo mesmo, o foco passa a estar lá na frente, não lá atrás.

O que a gente era a gente modela pra ser quem a gente quiser, mas não se limita a isso de jeito nenhum. O que limita é sempre uma falsa identidade.

Quando eu era menor escutava muito Metamorfose Ambulante, do Raul Seixas. Gostava tanto dessa música e das sensações que ela me gerava que tinha até coreografia (assim podia sentir duplamente, cantando e dançando).

Passei um tempo da minha vida sem lembrar dela, e quando paro pra pensar e olho as pessoas ao redor percebo que muita gente a esqueceu também.

Quanto mais a gente cresce, mais a gente tenta se agarrar às coisas, se enraizar… menos a gente quer se libertar e se recriar.

Se você quiser você pode ser uma nova pessoa a cada dia (e pode ter certeza que os maiores resultados vem quando você assume essa atitude na vida). Mas, se quiser, você também pode deixar o mundo te acovardar.

Você vai recuar, vai sempre voltar a quem você era, aos poucos não vai nem mais saber quem você de fato é, e cada vez terá menos elementos para tomar decisões na sua vida.

Sabe por que? Porque o mundo não pára. Pelo contrário, ele te força sempre a ir pra frente, sempre te colocando em novos contextos. E se você se desatualiza, escolhe parar ou voltar pra trás, você não consegue mais lidar com ele.

Como se fosse um criança, com seus recursos e padrões de comportamento, tendo que lidar com os desafios de gente grande. Ou uma pessoa madura, achando que pode continuar tendo as atitudes de quando estava na flor da idade.

“É apenas necessário enfatizar que a identidade também é singular, algo que experenciamos por inteiro. A identidade de uma pessoa não é o conjunto de afiliações separadas, nem um tipo de retalho perdido; é como um padrão desenhado firmemente num pergaminho esticado. Toque em uma única parte dele e toda a pessoa reagirá, toda a bateria reagirá”.

Amin Maalouf

É isso… por mais que falem por aí de identidade como algo fixo e inato, eu julgo que essa é (e deve ser) uma qualidade totalmente mutante. Que seu maior desafio é se manter atual consigo mesmo, com seus desejos, sonhos e projetos de vida.

Agora minha sugestão (e desafio) é a seguinte… que tal, por uma semana, você esquecer qualquer imagem que tenha de si mesmo, esquecer o que sempre disseram que você era, pensar apenas em quem você quer ser e encarnar a sua metamorfose?

Por exemplo, uma das coisas que eu tenho feito é esquecer a ideia que eu tinha (e que cresci ouvindo) de que eu canto mal. Sempre sonhei em poder cantar (sou amante dos musicais) e agora estou trabalhando essa minha metamorfose, que começa basicamente em entender que com treino podemos qualquer coisa. Então agora eu vou poder treinar no meu máximo deixando pra trás qualquer bloqueio que até então eu tinha. Me aguarde 😉

E aí, topou? Bora fazer isso por você também? Então me conta aqui nos comentários!

Aposto alto que se levar a sério essa experiência não vai mais querer nada que não seja ser essa metamorfose ambulante 🙂

 

  • Gui Cardoso

    Top post, mamá!

    Grandes aprendizados muitas vezes vem justamente quando você é forçado a sair do que você considera sua “identidade”. A grande diferença está em não esperar que algo te force a ter que mudar, mas sim antecipar as mudanças pra se tornar quem você quer se tornar.

    Mudar não é perder sua essência, pelo contrário, mudar tem que fazer parte da sua essência! Como você mesmo falou, “A mudança e a inconstância são ajustes. São sinônimos de adaptação. De evolução.”. Associação perfeita!

    • Marina Teixeira

      Antecipar as mudanças, this!

      Mas você não disse se topou o desafio 🙂

      • ALIEN_MALUCO

        Sim, topo com certeza o desafio. @marinabottinoteixeira:disqus o @guilhermepcardoso:disqus já esta dizendo “topo” só que com suas próprias palavras, e é incrível ver originalidade, esse prazer de expressar-se, de sair do roteiro, somente tentar improvisar na vida

  • topo o desafio.

  • Ana Paula

    Aceito o desafio! Desmistificar as ideias (internas e externas) de que nao sei dançar e cozinhar! Rsrs… Posso descobrir e experenciar muitas coisas bacanas com essas empreitadas. Vamos ver! 😉
    Marina, esse seu texto me fez lembrar de um filme brasileiro chamado “Entre nós”, de uma cena especificamente, na qual os personagens leem cartas que escreveram para eles mesmos há dez anos.
    Beijos!

  • Liliane

    Mais um excelente texto! Parabéns, Marina! Quero fazer uma sugestão. Poderia escrever um texto sobre como você e o Gabriel conciliaram família e o high stakes lifestyle dentro de casa e depois que foram morar sozinhos e como é até hoje?
    Beijos!

  • Liliane

    Mais um excelente texto! Parabéns, Marina! Também topo o desafio, sim! Acho que além de mudar nós mesmos, nos reinventando, as pessoas ao nosso redor se sentirão surpreendidas, porque não haverá previsibilidade mais..
    Mudando de assunto, quero fazer uma sugestão. Poderia escrever um texto sobre como você e o Gabriel conciliaram família e o high stakes lifestyle dentro de casa e depois que foram morar sozinhos e como é até hoje?

    Beijos!

  • Letícia Cristina

    Amei o texto! Me fez refletir muito sobre minha vida e sobre a confusão que está minha cabeça nos últimos anos, sabe crise dos 20 e tantos? hahaha essa mesma. E já que não me reconheço mais quando olho no espelho, acredito que essa seja a hora certa para eu encarar esse desafio da mudança de hábitos, de identidade e criar um novo EU. Muito obrigada!