Roube como um artista – Um mergulho no mundo da criatividade

 

“Poetas imaturos imitam, poetas maduros roubam; Poetas ruins desfiguram o que pegam e poetas bons transformam em algo melhor, ou pelo menos diferente. O bom poeta amalgama o seu furto a um conjunto sensível que é único, completamente diferente daquele de onde foi removido” – T. S. Eliot

Ser criativo é uma arte, e ao mesmo tempo um desafio.

O bom é que na vida a gente sempre vai descobrindo que existem caminhos mais fáceis (e muitas vezes mais bonitos e criativos) para chegarmos onde queremos. Aqui Austin Kleon nos mostra um deles…

Algumas semanas antes de lançar o blog eu mergulhei no livro Roube como um artista, de Austin Kleon, e tive uma linda surpresa: cada página que passava eu sentia como se o autor tivesse entrado na minha mente. Como podia uma pessoa desconhecida traduzir melhor do que eu meus próprios sentimentos e pensamentos em relação a um assunto?

“O mundo inteiro é um palco. Trabalho criativo é um tipo de teatro. Seu palco é o seu estúdio, sua mesa ou sua estação de trabalho. O figurino são os seus trajes – suas calças de pintor, seu terno de negócios ou aquele chapéu engraçado que te ajuda a pensar. Os equipamentos são seus materiais, suas ferramentas e seus formatos. O roteiro é só o simples e velho tempo. (…) Fingir até conseguir.”

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É, ele colocou em poucas palavras e de forma muito clara, o conceito chave do Tudo pela Arte…

Somos todos artistas. Independente do que você faça, faça como um artista. Inclusive, a partir de agora, roube como artista.

O livro é dividido em 10 capítulos, cada um deles sendo uma dica de criatividade, independente da sua profissão.

Se você vive preso a ideia de que boas ideias são só aquelas 100% originais, criadas do nada, sem modelos… ou se o seu instinto é de esconder quando você imita ou usa a ideia de alguém como base para as suas, esse livro pode ser libertador pra você.

Austin Kleon começa o livro já defendendo essa visão que apavora muitas pessoas, mas que é a mais pura verdade: nada é original. Tudo que vemos ou fazemos é uma ‘colcha de retalhos’, uma remontagem.

Em nenhum momento, nem por um segundo, eu me incomodei quando descobri que o meu conceito de arte não era 100% original (que outras pessoas já estavam criando coisas a partir desse mesmo approach).

Foi inclusive o oposto de ruim… foi incrível encontrar num mesmo lugar inspiração e liberdade. Nunca pensei que a palavra “roubar” poderia remeter a tanta generosidade.

Porque é isso mesmo e não tem como negar: nada vem do nada. Nada é 100% original (e eu acho até que isso provavelmente seja impossível nos dias de hoje). Toda criação se apoia em algo que veio antes, e isso não a torna menos valiosa. E nem você passa a ter menos valor por se aproveitar disso.

“Se estivermos livres do fardo de sermos completamente originais, podemos parar de tentar construir algo do nada e abraçar a influência ao invés de fugirmos dela.”

É isso, quando falamos de arte, da sua, da minha ou de qualquer pessoa, tá tudo liberado… Roube a vontade, desde que roube como um artista.

“Não saímos do útero sabendo quem somos. No começo, aprendemos fingindo que somos nossos heróis. Aprendemos copiando. Estamos falando de prática, não de plágio.”

Copiar (sem plagiar) é uma arte… não é você tentar fazer o trabalho de outra pessoa se passar por seu, é a arte de se inspirar com coisas que estão livres para qualquer pessoa e usar isso de forma única, para produzir algo único.

Austin te diria pra roubar o máximo que puder sem sentir vergonha disso. Isso mesmo, toda boa ideia tem que ser usada por mais de uma pessoa. Tem que ser disseminada.

No livro você entende que essa é a regra, não a exceção: Todo artista coleciona ideias que não são dele. Só que faz isso com beleza, de forma pura e honesta. Sem plagear.

Por isso, ao mesmo tempo que o livro te encoraja a pegar pra você grandes ideias, ele também ressalta esse outro lado (e você pode levar isso como uma máxima pra você):

“Não se limite a roubar o estilo, roube o pensamento por trás do estilo. Você não quer parecer os seus heróis, você quer enxergar como eles.

É isso e não podia ser mais lindo do que isso. Captar a essência. Captar o olhar e a magia. E a partir disso produzir algo seu, que vai ser único.

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E aqui entra uma diferença conceitual que o livro deixa bem clara, mas que vemos o tempo todo se confundir na vida real: Colecionar é bem diferente de acumular.

De nada adianta colecionar coisas indiscriminadamente, sejam elas objetos, ideias, sentimentos… ou até mesmo pessoas. Acumular apenas não gera resultados, não faz arte.

Você tem o poder de escolher o que quer colecionar ou não, o que quer guardar com você ou quer deixa ir… o que entra e o que sai.

Segundo Kleon (e concordo 100% com ele nesse ponto), “Seu trabalho é colecionar boas ideias. Quanto mais ideias boas você tiver coletado, mais fontes terá para poder escolher quais irão te influenciar.”.

Ou seja, se você não coleciona, pouco você cria. E menos ainda você recria. Ou se recria.

Por isso em Roube como um Artista o autor te aconselha a criar seu próprio arquivo de furtos, pra você não perder de vista as coisas que furtou dos outros. Pra poder guardar para mais tarde.

Eu concordo que não há mal nenhum em imitar, especialmente se isso te coloca em movimento… porque quando você faz, você sente… quando sente, se descobre. E aí, finalmente, se liberta.

Então, como considerar ruim algo que aproxima você de você mesmo?

É, a imitação faz parte de qualquer processo criativo, independente da área que ele esteja cobrindo.
Uma criança cresce e descobre o mundo assim… imitando. Tentando imitar seus heróis, tentando pensar, ver e sentir como eles. Os animais aprendem a sobreviver assim também, imitando.

“É em nossa falha em copiarmos nossos heróis que descobrimos onde está o que é nosso. É assim que evoluímos. (…) A mera imitação de seus heróis não é homenagem. Transformar o trabalho deles em algo seu, sim, é homenageá-los. Dando algo ao mundo que só você poderia conceber.

Eu acho lindo isso… quando o seu ato de imitar é uma busca por melhor expressar a sua arte.

Agora, ao mesmo tempo em que o livro te incentiva a roubar pra criar, a pegar de fora, ele também te orienta a olhar pra dentro e usar isso como matéria-prima.

“Não escreva sobre o que você conhece, escreva sobre o que você gosta.”

Gandhi já dizia, “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Kleon veio e reformulou isso de forma mais criativa:

“Desenhe a arte que você quer ver, comece o negócio que quer gerir, toque a música que quer ouvir, escreva os livros que quer ler, crie os produtos que quer usar – faça o trabalho que você quer ver pronto. “

Você só não precisa se desesperar para fazer sua arte e ideias serem vistas, e aí atropelar o tempo.

Sim, como disse um pouco acima, eu defendo que toda boa ideia deve ser espalhada para o máximo de pessoas possível. Mas isso sem pular etapas…

E nesse sentido o livro aborda o poder do anonimato. Já parou pra pensar nisso, no quanto pode ser positivo e como você tem que aproveitar seu momento pré holofotes?

Não precisa se desesperar, se você vive sua arte, você vai pro mundo. Então é muito importante aproveitar a fase de desconhecimento, é nela que você mais cresce, que se estrutura e cria bases sólidas.

“Não há pressão quando você é desconhecido. Quando você é desconhecido, não há nada que o desvie do propósito de melhorar. Aproveite seu anonimato enquanto durar. Use-o.”

É importante passar por isso se você quer crescer e não ter limites pra sua arte.

Toda nova marca que surge no mercado se aproveita desse desconhecimento para se fortalecer… conhecer melhor seu público, consolidar seu conceito e buscar melhorias, avanços.

E aqui vai mais um reforço pra ideia de que você não precisa ser original pra se destacar. Você só precisa ser diferente (com propriedade, claro). Buscar a inovação faz parte dos processos criativos… e uma coisa inovadora sempre surge de algo. É um trabalho de melhoria.

“Você deve reparar e surpreender-se com coisas nas quais ninguém mais está reparando. Se todos estão prestando atenção em maçãs, comece a reparar em laranjas.”. Não tem nada de original nas laranjas, mas tem de inovador se o que todo mundo está vendo são só maçãs.

E pra isso Kleon tem uma fórmula:

“Há apenas uma fórmula não-tão-secreta que conheço: Faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas.

A pessoa vive um mundo próprio, só seu (e se você quer ser criativa, busque isso). Pra isso ela precisa saber estar a sós consigo mesmo e aproveitar esses momentos. O autor deixa clara a importância disso e diz que pra não perder nenhum desses momento, sempre carrega consigo livro, caneta e caderno de anotações, “sempre desfruto da minha solidão e do confinamento temporário.”

Um diário de bordo também é uma ótima ideia… um lugar onde você lista as coisas que faz todo dia. Onde registra suas ações e pensamentos, pra não deixar nada se perder e ainda assim no dia seguinte estar sempre com a mente livre pra novas ideias e novas experiências.

A criatividade pra se manifestar precisa dessa liberdade, de um fluxo de ideias livre.

O autor também destaca o quanto é fundamental que você busque se alimentar com o melhor possível – criativa, social, espiritual e literalmente. O que você come é só o primeiro passo para uma boa nutrição, e você precisa nutrir corpo e mente.

As pessoas que te cercam fazem parte da sua nutrição. Fique atento, é como se você casasse também com seus amigos, parceiros de trabalho… no fundo, com qualquer pessoa que escolhe encontrar e conviver. Tudo que te influencia é uma nutrição.

Austin Kleon encerra o Roube como um Artista com um conceito que não é instintivamente associado à criatividade.

Pra mim é muito claro que as pessoas que se destacam, que chegam na frente em alguma coisa, não são as que abraçam o mundo, mas as que sabem escolher melhor… tanto o que elas colocam pra dentro de suas vidas, quanto o que deixam de fora.

Escolher pra realmente só focar no que é importante. Certo?

Mas aí Austin vai um pouco mais a fundo… “Parece contraditório, mas quando o assunto é trabalho criativo, limitação é liberdade. A restrição certa pode levá-lo ao seu melhor trabalho.”

E é, quando a gente pára pra pensar faz sentido. Criatividade não é apenas o que escolhemos usar, é também as coisas que escolhemos deixar de fora.

“Reagimos numa obra de arte à luta do artista contra suas próprias limitações. Frequentemente, é o que o artista escolhe deixar de fora que torna a arte interessante. É o mesmo para pessoas: O que nos torna interessantes não é só o que experimentamos, mas também o que não experimentamos.”.

Isso não muda a importância de você manter a sua mente livre, com o caminho livre para as ideias correrem. O que o autor coloca em jogo aqui é a importância de você não abraçar todas as ideias que chegarem até você…. a importância de filtrar e escolher o que entra e o que fica pra fora.

Quando você faz uma coisa está deixando de fazer tantas outras. E isso faz parte da sua arte, ela tem que contar essa história… a história do que ela tem e do que ela escolher não ter.

E acredite, o que fica pra fora também diz muito sobre você. E também faz parte do processo criativo, porque também te inspira, te direciona e te permite criar.

Antes de finalizar, estão aqui enumeradas as 10 dicas de criatividade que o livro descreve:

1 – Roube como um artista

2 – Não espere até saber quem você é para começar

3 – Escreva o livro que você quer ler

4 – Use suas mãos

5 – Projetos paralelos e hobbies são importantes

6 – O segredo: Faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas.

7 – A geografia não manda mais em nós (viva a tecnologia 🙂 )

8 – Seja legal (o mundo não é uma cidade pequena)

9 – Seja chato (é a única maneira de terminar um trabalho)

10 – Criatividade e subtração

 

É isso.

Que essa dicas liberem sua criatividade e que o resultado seja: Independente do que você faz, faça como um artista.

Vou adorar saber o que você achou desse mergulho no mundo da criatividade e se esse livro entrou pra sua lista.

Esse é o intuito desse espaço… compartilhar grandes ideias e te incentivar a buscar cada vez mais inspiração através de grandes mentes 🙂

 

 

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  • Lucas Cubas

    Top Mamá, valeu de mais.

    • Marina Teixeira

      Show o livro né, Lucas?!
      Me conta suas impressões depois que ler 😉

  • Muito legal a sua reflexão sobre o livro. Parabéns Marina 🙂

    • Marina Teixeira

      Obrigada, Fernando!
      Mas gostou a ponto de querer ler? hehe 🙂

      • Sim, com certeza. Esse livro entrou pra minha lista de “próximos livros” que foi criada durante o MovingUp. Essa lista está um pouco grande (rrss) mas é fato que vai chegar a hora dele 🙂

  • Maria Fernanda Ayres Nogueira

    Se seu objetivo é inspirar, CHECK! Uau! Gostoso ler um texto que em que você aprende, mas nao como uma aula

  • Rafael Moura

    Show de bola! Muito top essa leitura bem no último dia do ano (li apenas hoje, kkkk). Inspirando 2016, parabéns Marina!

  • Juliano Cordeiro

    Boa Noite! Primeiramente queria lhe dar parabéns por sua arte, qualquer um pode escrever mas… Saber escrever as palavras certas já é diferente, rs. Já estava cheio de seguir as mesmas regras que todos seguem, queria fazer algo diferente, mostrar ao mundo o que eu via e vejo. Sempre tive com um pé atrás com medo de seguir com minhas idéias e desejos, a forma que tu descreve as coisas me inspira, e olha que esse é somente o segundo artigo que leio, o primeiro foi sobre “5am club”. Coloquei na mente que 2016 eu faria diferente, buscaria melhorias pra minha vida, e com certeza de agora em diante estou muito inspirado e determinado a fazer muito mais do que eu imaginava. Obrigado por compartilhar esse mundo. 😀

  • Moises Melo

    adorei o post, me inspirou a dar o meu melhor e um dia ser o melhor no que faço, abraços e obrigado por tudo xD

  • Daniele Piske

    Nossa amei, já esta na lista de leituras, e compartilhei com amigos para inspiração!!
    Muitooooo grata adorando os textos!! _/_

  • Nadia Gomes

    Amei a postagem. Entrou para minha lista de leitura.

  • Vislei Gonçalves

    Show demais, esse livro eu leio nem que… Eu lerei (rsrs)
    Porque parou as postagens por aqui?