Relatos Selvagens – um alerta pro caos social: a luta pela sobrevivência X o desejo de corromper para se encontrar

 

Quantas vezes você já sentiu que estava perdendo o controle?

Já se viu numa situação de injustiça em que sua vontade era de poder explodir tudo?

Recentemente eu assisti a um filme que, entre muitas risadas e angústias, me fez refletir sobre a condição humana… sobre até onde pode chegar o ser humano, como ele justifica suas ações e o que nos falta como sociedade.

Relatos Selvagens, filme argentino dirigido por Damián Szifron, é uma antologia que reúne 6 histórias que tem o caos como pano de fundo. Protagonistas fora do controle que chegam ao extremo e decidem assim fazer justiça com as próprias mãos.

Uma comédia dramática, um humor inteligente que explora com louvor os limites cômicos do sadismo.

Se ainda não assistiu, recomendo! Um filme obrigatório no repertório daqueles que se interessam pela condição humana e por sua evolução pessoal e social. E se sabe apreciar a arte do cinema, provavelmente a indicação pese mais sabendo que o estilo Almodóvar de ser está presente na sua melhor forma…

Há um aspirante a músico que reúne todos os que o fizeram sofrer e desacreditar de si mesmo em um só lugar; uma garçonete que reencontra o homem que arruinou sua família; uma briga de trânsito que te surpreende a cada nova ação/reação dos personagens; um engenheiro indignado com uma multa indevida e a burocracia sem limites; um milionário que tenta livrar o filho mimado de responder por seus atos; e uma noiva que descobre que o marido a traiu (e com quem) em plena de festa de casamento.

 
Não diria que são histórias simples que acontecem a todo momento, mas que começam em ações cotidianas, e que justamente por isso provocam identificação quase imediata no público. Provavelmente em algum momento você vai pensar “caramba, isso eu faria” ou “tô vendo o fulano aí”.

E no meio do caos, entre muito suspense e imprevisibilidade, o que o filme nos conta? A meu ver, as principais dores do indivíduo moderno e a consequência social disso: um mundo à beira do colapso e da autodestruição.

Ele revela o que há de mais humano em nós, a falta de racionalidade quanto o sentimento está a flor da pele, e uma consequentemente animalização, já prenunciada nos créditos iniciais do filme em que os atores são apresentados como animais.

O sentimento incontido, com o qual não sabemos lidar, e que nos aproxima do primitivo. Com certeza você já passou por isso!

Não são só os instintos humanos que guiam esses personagens (e nós), mas também uma ideia comum de mundo, em desordem e desprovido de qualquer confiança ou arbitragem. Um mundo em que o indivíduo se sente completamente sem abrigo, desamparado, até chegar no estágio em que, por isso, se vê no direito de corrompê-lo.

A todo momento vemos esse duelo entre a emoção e a razão de um indivíduo perdido, sozinho e desamparado.

Todas as reações violentas dos personagens vem acompanhadas de uma tentativa de autorização de si mesmo que garanta seu direito de se vingar, de fazer valer suas intenções, apesar das ações…

Em diferentes graus, nós também fazemos isso a todo momento… vivemos fechados no nosso mundo, dentro da nossa própria caixa, incapazes de enxergar o outro, de considerar sua perspectiva e existência.

Às vezes traímos nossos próprios pensamento e sentimentos pra isso, às vezes o fazemos simplesmente ignorando o outro e sua essência. Independente do como, fazemos para justificar e autorizar atitudes egoístas, individualistas, parciais, que muitas vezes prejudicam o outro, ainda que não cheguem ao estado da violência.

A escolha é sempre do indivíduo (minha, sua, dos personagens do filme), mas nesse impasse em que ninguém cede e o equilíbrio interno não é uma possibilidade, o resultado acaba sendo o extremo e a violência.

Essa é a primeira dor que o filme aponta: pessoas que não conseguem mais dialogar umas com as outras, e na falta da palavra e do acordo a única opção é o ato de agredir.

E essa incapacidade de enxergar o outro e agir também a favor dele instala-se o caos. No filme, um cenário em que os personagens são descrentes de tudo, não só com o divino, mas com o humano, com as instituições humanas criadas em teoria para manter a nossa ordem e sobrevivência.

Instituições que são ineficazes, injustas, ou corruptas, e por isso levam a dois cenários:

Uma sociedade que se sente completamente desamparada e por isso se vê no direito de chegar aos seus limites, de desafiar o outro e medir forças. Se o que é da ordem do humano não vem funcionando elas não tem porquê se comportarem como tal.

E por outro lado, desenvolve-se entre os personagens uma outra ironia a cada dia também mais presente em nossas vidas: a ideia de que tudo na vida pode ser comprado. O quase músico que sofreu buylling a vida toda pode pagar pelo destino dos que o fizeram sofrer. O agiota pode comprar a ruína de uma família. O motorista pode comprar não só o carro, mas a estrada toda. A prefeitura pode lucrar desumanizando o contribuinte (que só tem a opção de pagar para não ser multado). Os pais podem comprar a justiça e a liberdade dos filhos. E os noivos podem comprar não só a festa de casamento, mas uma projeção de felicidade.

E eles seguem comprando, até o momento em que dá um curto-circuito entre razão e emoção. Até o ponto em que o indivíduo nem suporta mais ser isso. Ou seja, nada! E aí, para reencontrar sua essência, precisa se desfazer de todos os artifícios.

A analogia que me vem a cabeça é de uma pessoa se afogando, desesperada para pegar ar, valorizando cada segundo de respiro.

E apesar de tanta identificação por parte do telespectador, do preciso retrato que é feito do caminho que vem seguindo as sociedades de hoje em dia, o que distancia o filme da realidade? Por que normalmente não chegamos a esses extremos na vida real?

Porque lutamos para não nos afogarmos. Vivemos essa contradição, a luta pela sobrevivência X a vontade de corromper tudo que está em vigor. Na vida real, na maior parte do tempo, ainda ganha a sobrevivência, nossa auto-repressão que permite a vida em sociedade. O Superego de Freud.

Mas nessa realidade em que luta-se para sobreviver, caminhamos infelizes e sempre batendo na porta do limite. Do caos.

E o filme é um alerta de que não dá mais para ficarmos na zona da sobrevivência. Isso só nos torna a cada dia menos humanos: indivíduos doentes, com relacionamentos frívolos e doentes, valores soltos no ar e uma felicidade perdida por falta de referência.

Um alerta de que a cada dia, progressivamente, quanto menos as pessoas se cuidam, mais animais elas ficam, e mais perigosa e vulnerável a sociedade em que vivemos.

Um alerta de que nunca é demais dizer que a mudança começa em nós. De que o primeiro passo é fortalecermos o que nos fortalece, criar nosso próprio abrigo e acolhimento. Só assim, quando sua existência e identidade não estão em jogo, você se sente capaz de agir considerando o outro, de ser também em favor dele.

A conversa da justiça e do direito não pode vir antes da conversa do indivíduo com ele mesmo.

“Em todo caos há um cosmos, em toda desordem uma ordem secreta.”
Carl Jung

É impossível uma pessoa que se perdeu de si mesmo e se desprendeu de suas raízes se sentir feliz, abrigada e capaz de equilibrar razão e emoção. Essas seguem soltas, como marionetes do sistema e da sociedade. E por isso sentem-se a todo momento traídas, vulneráveis, à beira do limite.

O alerta que me fica?

Que a escolha é sempre nossa.

A minha escolha não é pela sobrevivência, mas pela liberdade de estar no meu próprio controle e refletir isso no outro, com o qual me relaciono, e no mundo.

Uma sociedade só é doente se formada por indivíduos (ou personagens) doentes.

E pra você, qual alerta que esse post te deixa? E o filme? se ainda não assistiu, vai lá que vale a pena e depois volta aqui pra compartilhar 🙂

 

  • Descobrimo-nos ao momento que voltamos a nos conectar com nossas paixões e aptidões, só assim para tirarmos a máscara e vivermos nós, de fato essencial e como unidade. Perder o controle é afastar disso tudo, da verdade de nós mesmos.

    • Marina Teixeira

      Bela forma de descrever o que é perder o controle.
      Adorei e concordo, Homero!