Quem ama cuida? Eu prefiro um outro verbo…

 

O que pra você é o amor?

Já parou pra pensar em como você ama?

Minha mãe diz que amar é cuidar acima de tudo. Não discordo que existe cuidado no amor, mas não partilho desse mindset.

Lá em casa sempre foi assim, quando eu viajava tinha que deixar todos os rastros. Mesmo quando eu ia com o Gabriel meus pais queriam saber tudo… companhia área, número do vôo, endereço de onde ia ficar e, claro, “avisa” quando chegar.

Você também tem pais corujas? o/

Com os anos e o número de viagens crescendo eles até deram uma aliviada (um whatsapp pra ter certeza que eu cheguei bem agora era suficiente), mas como dessa vez eu estou aqui em San Diego sozinha, o assunto veio a tona de novo.

No começo dessa semana minha mãe veio pedir de novo meu endereço daqui, “Seu pai tá pedindo, ele fica mais tranquilo sabendo onde você tá”, foi o que ela disse (detalhe que ele já tinha me pedido inclusive o link do Airbnb, haha).

Eu não tenho nenhum problema em passar tais informações pros meus pais, não me custaria nada e sei que eles não fazem isso querendo me “fiscalizar”… acontece que a volta dessa situação me fez refletir sobre o que é o amor e as formas que escolhemos amar as pessoas.

O ponto não é o custo, mas o valor (valor? já vou explicar isso.)

Não sei se diria que sou uma pessoa romântica (prefiro evitar essas denominações), mas nunca fui de grude, de ficar expondo facilmente meus sentimentos.

Sou e sempre fui intensa e inteira com as pessoas… quando amo, amo muito e deixo isso claro, sem banalizar.

Mas também sempre fui muito na minha, reservada, e faço questão do meu espaço. Por isso acho que desde quando eu me lembro que entendo o que é amor, já o associo a liberdade.

É como diz aquela famosa frase, “Se não lhe der sossego não é amor, é apego”.

Eu até entendo que os pais tenham um instinto protetor e essa seja uma das principais formas de amarem. Só que a minha reflexão é… Se não tem valor não tem cuidado.

E quando eu falo em valor estou falando em qualquer coisa que gere melhorias na vida do outro. Qualquer coisa.

Gerar valor começa com pequenas atitudes… ser otimista, positivo, não cortar sonhos ou criar barreiras, não transferir seus medos ou angústias pro outro. Pode ser simplesmente indicar um filme, um livro, mandar uma mensagem perguntando “como você está? tem algo que eu possa fazer por você?”.

E fazer isso sem querer nada em troca, simplesmente pelo ato de gerar valor. Gerar valor.

Tem um livro muito interessante que fala sobre esse conceito, Give and Take, de Adam Grant.

“O sucesso depende muito de como nós interagimos com outras pessoas. (…) Tentamos reivindicar o máximo de valor que podemos ou geramos valor sem nos preocuparmos com o que recebemos em troca?” – Adam Grant

Que tal esse livro em breve na nossa biblioteca?

O sorriso no rosto e a gentileza nas atitudes já são valor. O medo da dor e a angústia nos olhos, não.

Por isso que eu digo que o cuidado está no crescimento que geramos pras pessoas que amamos, e não no instinto de protegê-las.

Faz sentido pra você isso?

Eu vejo assim…

O que eu mais quero pras pessoas que eu amo é que elas voem, que sejam livres e plenas. E por mais que muitas vezes eu também sinta o instinto de querer protegê-las, hoje eu vejo que esse não é o caminho.

O que muda meus pais saberem meu endereço ou meu marido saber pra onde eu vou ou deixo de ir todos os dias aqui? Se acontecer algo comigo a situação estará totalmente fora do controle deles. Então, para que gastar energia com uma situação em que estamos de mão atadas?

Eu não vejo amor em situações como essa. Vejo apego e projeções (de medos, angustias, hábitos, sonhos, o que quer que seja).

Entendo que pode parecer uma situação extrema. A história é apenas contexto, porque é dela que parte a reflexão… por que prendemos tanto as pessoas? Por queremos sempre protegê-las? Por que gastamos tanto da nossa energia com coisas que estão fora do nosso controle?

Se amamos a ponto de querer cuidar e proteger uma pessoa, a melhor coisa que podemos fazer é ajudá-la a voar. Fazer o curativo não adianta muito, o importante é ensinar a voar com uma asa quebrada. Pra mim essa é a maior prova de amor.

A vida cobra o tempo todo da gente e cada vez mais. Os super protegidos podem até não cair com frequência, mas também nunca terão a chance de decolar.

Pensa na pessoa que você mais gosta… Como poderia levar mais arte pra vida dela? O que poderia fazer pro dia dela ser outro depois da sua presença?

Ser vítima, sobretudo nos dias de hoje, não é uma boa escolha. O mundo pede mais guerreiros. Pessoas vivendo sua arte, que não querem saber de proteção. O que elas querem é ir pro campo de batalha.

E pra vivermos nossa arte precisamos sermos muito guerreiros, o tempo todo.

Não é de proteção que precisamos.

Existem várias formas de amar… e esse é o que eu chamo de amor moderno.

O amor que se expressa na geração de valor e na potencialização do outro. O amor que liberta e dá asas. O amor que dá a cada um o seu próprio espaço.

Pra minha mãe, amar é cuidar acima de tudo. Pra mim não.

Concorda ou não com o meu conceito de amor moderno?

Adoraria ver uma discussão sobre isso aqui embaixo 😉 Vou estar presente em todos os comentários!

 

  • Rodrigo Moraes

    Olá Marina! Bom ver o blog voando e ganhando profundidade nos temas… cuidados excessivos é sim pura projeção de medos e afins… fomos programados assim… precisa de resignificação pra mudar …

    • Resignificação. Gostei dessa palavra, Rodrigo.
      Acho que ela traduz bem a ideia: não é não cuidar, é apenas priorizar o valor ao cuidado!

  • Jansen Osório

    Muito interessante. Já faz um tempo que cheguei a conclusão que amar é exatamente o conceito visto acima. O amor com o cuidado excessivo gera insegurança, atritos e afins. Não vale a pena gastar tanta energia desta forma! Me lembro de um amigo que sempre dizia: “Não me é muito importante essa questão (saber onde as pessoas estão). Porque no final, saber ou não, não vai mudar muita coisa na minha vida”. Talvez, hoje eu concorde mais com ele – bem mais. Bom, adorei o texto. Ele é bem reflexivo e bem escrito. Parabéns, Marininha! Compartilhando em 3..2..1.

    Ah, e lá no comecinho (“Mesmo quando eu ia com o Gabriel…”), acho que tá faltando uma palavrinha.

    Abraços! Até a próxima.

    • Haha, valeu, Jansen!
      Traz esse amigo aqui pra trocar valor com a gente 🙂

  • Vinicius de Campos

    Também penso dessa forma, o “amor antigo” desgasta o relacionamento, não dando a liberdade que tanto precisamos.
    Muito bom o blog (:

  • Lilia Buraga

    Ola Marina! Sem dúvida, tem uma parte de razão na sua opinião sobre o ” amor moderno”. Mas eu, desde que sou mãe, mudei muito a minha percepção de ” como demonstrar o amor que sentimos pelos nossos entes queridos” . Sou uma ” mãe galhina” ( como dizem os portugueses) assumida e não há nada a fazer. ” Trabalho” este defeito junto com a minha filha, quando ela me mostra que “pisei o risco”. Mas continuo a achar que ” amor materno deve ser assim” ( moderno ou antuquado) .Por isso parabéns pelos pais que tem, Marina.
    Já o ” amor moderno” entre um casal, claro que se baseia muito em ” dar espaço” um ao outro. Mas eu sobre este assunto tive que ” trabalhar ” imenso com o meu marido. Mas acredite, Marina, mesmo amando muito o meu espaço e a liberdade, não há nada mais querido a ouvir a voz do meu amado a perguntar : ” Chegaste bem, meu amor? Está tudo bem contigo?” ….e depois, claro que tenho que dar toda a informação que os seus pais também lhe pedem. A forma de amar e sermos amados depende muito de nos próprios. Desejo-lhe continuação de uma ótima escrita Marina e até para semana!

    • Oi, Lilia.

      Que gostoso receber uma mensagem de longe. Tenho família em Portugal e AMO essa terra.

      Todo relacionamento é uma construção, a gente vai se conhecendo, se entendendo e se encaixando. Entre pais e filhos também acho que é assim (ou deveria ser). E sou muito grata aos pais que tenho, porque mesmo sendo super corujas (muito cuidado), eles nunca cortaram minhas asas (valor).

      Concordo com você que é muito gostoso ouvir e sentir o carinho dos outros, não acho que cuidado e valor sejam termos excludentes. O ponto que ressalto aqui é que acho que o valor tem que vir primeiro e em doses maiores!

      E se você trabalha “defeitos” com sua filha, já está no mindset valor > cuidado. É assim que eu vejo.
      Então, parabéns também 😉

  • Lucilene Maidana

    Nossa… essa é uma questão complexa, pois precisamos entender que sentir-se seguro no nosso amor independe do domínio que temos sobre o outro. No meu caso, isso veio junto com a maturidade, que eu vou ganhando a cada ano que passa, com as experiências que vivo. Porém, confesso que quando falamos de “Amor Materno” isso foge do controle, e muitas vezes este cuidado é nada mais que tentar evitar que um filho sofra. Parece piégas, mas é exatamente assim que me sinto, a gente chega a desejar para si a dor que o filho está sentindo…

    • É, Lucilene.
      Imagino que esse sentimento deve fugir do controle mesmo. Já vi minha mãe sentir e expressar isso. É nobre!

  • Felipe Resende

    Parabéns pelo texto Marina! Causa um impacto muito bacana em mim…
    Sou o caçula de três filhos, e serei o último a deixar o “ninho vazio”. Já consigo sentir, principalmente nas palavras de minha mãe, que será difícil para os meus pais.
    Mas este texto gerou muito valor e ajudou a formular minha visão sobre o assunto.

  • Fábio Demétrio Rodrigues

    Segunda vez que leio o post kkkkk … Porém, agora me fez mais sentido do que nunca! Compartilhado tbm.

    • Marina Teixeira

      Haha, boa, Fábio.
      Mas e aí, o que mudou?

      • Fábio Demétrio Rodrigues

        O negócio é a gente tomar as rédeas de nossa vida! Tem hora que é bem melhor falar que nossa mamãe era protetora demais e isso nos sufocou, bem melhor. Tira todo peso das nossas costas.

  • Isabella Fontes

    Nossa! Nossa! Foi essa a expressão que tive ao ler seu post recomendado pelo Fabinho, amigo meu. 😮
    Precisei ler e reler alguns trechos para finalmente entender profundamente o significado dessa mudança de conceito e enxergar a arte do amor não pelo cuidado e zelo, e sim pela liberdade e pela libertação de sentimentos que não precisam estar ligados ao amor, arte tão sublime!

    Simplesmente fantástico! Difícil aceitar no começo, confesso, especialmente quando escrevo vários votos de casamentos,rsrs e todas preferem a famosa frase “quem ama cuida” (cerimonialista).

    Obrigada pelo post e por dividir um bocadinho do que vem refletindo. *.*
    Espero por mais posts como esse, que gere valor. Gere mais amor, liberdade e mais guerreiros.

    • Marina Teixeira

      Oi, Isabella!
      Vi seu comentário um pouco atrasadinha, mas adorei 😀
      Tão bom saber que o que faz sentido (e faz tão bem) pra gente faz também para outras pessoas. E que a gente consegue se expressar pra isso fazer sentido!

    • Fábio Demétrio Rodrigues

      Falei pra vc Isa .. a Marina é fera!

  • Dani Santos Silva

    Olá Mariana!
    Minha visão sobre o assunto é que seja o amor moderno, amor antiquado…
    O amor não tem um molde. Pelo menos não vejo assim. O Amor assim como todo sentimento cria sua forma de acordo com a personalidade do indivíduo. Logo, não consigo, de verdade, entender como é possível criar um rótulo para o sentimento. E pq que proteger é visto como prisão?
    Vc mesmo menciona q é possível ensinar a voar com a asa quebrada. Essa ação é uma proteção. O que parece desgaste de energia para um, para o outro pode ser a coisa mais importante a se fazer na vida. Eu entendo que sentimentos a gnt so consegue justificar, não definir.

    • Marina Teixeira

      Oi, Dani
      Com certeza os indivíduos dão forma aos sentimentos, mas eu acho sim que existe um conceito por trás… isso seria, inclusive, o que os torna universais.
      Não vejo a proteção necessariamente como prisão, apenas quando ela tira do outro e toma para si. Quando o ter a presença de alguém supera o ser dela.
      Obrigada por compartilhar seu ponto de vista!

  • Tatiane Pereira de Freitas

    @disqus_xfIUDAgi7S:disqus, o post é antigo, de certa forma, para algns, cheguei tarde a ele e a tudo que envolve “esse universo paralelo” apresentado por todos vocês da highstakesacademy,porém eu acredito que tudo em nossa vida, chega no momento em que estamos preparados para ver, entender e absorver, então cheguei no meu momento exato.
    Falando especificamente deste post, eu como mãe de 03 filhos (05, 11 e 14 anos), só posso lhe dizer o seguinte: é isso mesmo.
    No geral, sou vista como uma mãe pouco amorosa e não muito cuidadosa e isso porque simplesmente deixo meus filhos cairem seus tombos, tomarem suas decisões e arcarem com as consequências delas. Explico o que entendo como sendo o melhor, mas eles seguem se quiserem e são conscientes de que toda ação tem uma consequência, a decisão de pagar o preço é deles, não minha.
    O que mais me motiva a criar pessoas independentes e pensantes, é o fato de que não sou eterna. Um dia desses vou morrer e eles precisam ter condições psicológicas de continuar a vida deles, independe de quantos anos tenham quando isso acontecer. Estou certa ou não, não me importa. É o que vejo, é o que funciona na minha casa. Meu filho de 05 anos tem como cantor preferido Sinatra e gosta de assistir um animi que se chama Os sete pecados capitais (inclusive, comentando isso em um grupo, teve outras mães que disseram ter preguiça para essa história de ser cult/bullshit – não sou cult, não quero ser cult, sou Tatiane e meu filho é Rogério, com personalidade própria, escolhas próprias). Do outro lado tenho a Lívia com 11 que detesta ler, mas ama jogar futebol e é o que faz e faz com maestria. E por fim a Laura, que com 14 é uma devoradora de livros e escritora de fanfics. Então, para mim Tatiane, funciona dar a liberdade que meus filhos precisam ter para se descobrirem como seres pensantes. Amor é liberdade. E gosto muito da frase de Chico Xavier: Eu permito a todos serem como quiserem, e a mim como devo ser. E se eu me perder no meio do caminho do que devo ser, volto pro zero e recomeço. E é isso que quero para meus filhos. Resiliência. Questionamentos. Inconformismo. Enfim, parabéns pelo texto.