porque quanto menos você julga, menos você sofre

 

sempre me considerei uma pessoa sensível, como normalmente sentem-se os artistas. mas há algum tempo me percebi engessada… descobri que, mesmo sentindo muito, eu sabia pouco sobre meus sentimentos e julgava demais.

sentir e não reconhecer, não saber traduzir… é isso o que eu chamo de saber pouco. Se identifica?

vira e mexe a gente se emociona, é tocado pelas situações, mas não basta, não é disso que estou falando… usar os sentimentos e a sensibilidade a favor da sua comunicação e relacionamentos é outra história. colocá-los como agentes ativo no dia a dia, em toda e qualquer interação… foi aí que encontrei uma barreira.

vivemos hoje muito mais no plano da lógica do que dos sentidos, do concreto e não do abstrato. é uma dificuldade imensa lidar com tudo que passa sem se revelar, com o que não prende mas escorre… vem e vai, cheio de mistério e nuances.

por que? porque gostamos de nos sentir no poder, de prever e calcular, e assim nos esquecemos que quanto menos a gente considera o que sente e dá voz a isso, menos controle tem de si mesmo. e quanto mais somos movidos apenas pelo pensamento, mais sofremos com o paradoxo de desconsiderar o outro ao mesmo tempo em que focamos mais nele do que em nós mesmos.

“nós pensamos de mais e sentimos de menos.”
― charlie chaplin

poucas vezes percebemos, mas na busca desse controle, de evitar o imprevisível e saber bem onde está pisando, entramos numa luta de tentar que o outro seja uma extensão nossa.

jogamos a expectativa lá no céu de que as pessoas vão agir como se fossem nosso encaixe, da forma como consideramos ideal, de acordo com a nossa própria verdade, ainda que na maioria das vezes pouco sabíamos  sobre ela. tiramos de nós e passamos para outra pessoa a responsabilidade de atender nossas necessidades e expectativas, sem sequer explicitarmos quais são elas e, principalmente, sem considerar o que essa pessoa tem para dar.

e aqui está algo totalmente previsível… ninguém aguenta o karma de ter que se responsabilizar pelas expectativas e sentimentos de outra pessoa e o resultado é sempre o mesmo: frustração.

recentemente, parei para olhar algumas conversas no whatsapp e tomei até um susto… os julgamentos abocanhavam qualquer tentativa de observação e sentimento.

e quando digo julgamento estou falando, por exemplo, de ousar saber o que é melhor para o outro, ou de querer entender uma atitude alheia sem analisar o contexto e entender seus sentimentos. quando você diz a alguém, por exemplo, “se você não me respondeu prontamente é sinal disso ou daquilo” já está fazendo um julgamento.

hoje eu percebo que o que torna as pessoas incompatíveis não é o fato de serem muito diferentes, e sim o excesso de julgamento e de expectativas que há entre elas.

quanto mais a gente julga e menos sente, mais sofre. pois quando a gente sente e entende o que sente, a responsabilidade passa a ser toda nossa, e isso sim é estar no poder.

as expectativas vem, sobretudo, porque criamos na nossa cabeça a ideia de que as pessoas deveriam agir ou reagir assim como nós, independente da situação. ou seja, esperamos do outro o que ele não pode dar e inevitavelmente nos decepcionamos!

você já deve ter ouvido que “cada um dá o que pode” e isso é 100% verdade. e a gente só da o que pode pois tem recursos diferentes para interpretar as situações e lidar com elas.

desde criança passamos por isso. os pais dão o que podem dar, ainda que um dia a gente ache que foi pouco ou muito, certo ou errado. alguns optam por criar os filhos mais soltos para que eles estejam desde cedo preparados para encarar o mundo. outros optam mais por se fazer presente, por ensinar pelo exemplo e pelo zelo.

a cada escolha um resultado diferente, e lidar diferente não significa amar mais ou menos, se importar mais ou menos, ser mais ou menos… significa apenas usar as armas e os recursos que tem.

tomar o amor como exemplo me parece sempre mais fácil, pois homens e mulheres são muito diferentes, tem energias diferentes, ainda que para todo padrão existam muitas exceções.

normalmente, os homens são mais intensos, na mesma medida em que são mais desapegados. quantas vezes você vê um homem passar por aquela fase de “luto” depois do término de um relacionamento? é bem menos comum, e não porque eles sejam mais fortes do que as mulheres, mas porque tem formas diferentes de sentir, superar e aprender com as situações.

eu sei que o gabriel moveria mares e montanhas, iria contra tudo e todos para me ver feliz e realizada, ao mesmo tempo que sei que se amanhã não estivermos mais juntos, mesmo depois de tantos anos, ele não vai precisar de mais do que um dia para virar a página. por que ele não me ama? não, apenas porque esse é seu jeito de ser comigo sem deixar de ser, primeiramente e principalmente, com ele mesmo.

as pessoas são movidas pelo seu centro e ele fundamenta muitos dos seus recursos, e esquecemos de respeitar isso quando criamos expectativas em cima de alguém. e ainda que muito comum, chega a ser injusto e dominador.

ninguém está no mundo para atender as necessidades e expectativas de uma outra pessoa. estamos para ser e somar, não para completar ou suprir, e entender isso torna tudo mais fácil.

“todo mundo está vivendo uma batalha que você não tem a mínima ideia de qual seja”, o gabriel sempre repete essa frase e cada vez faz mais sentido para mim.

às vezes até sabemos um pouco das batalhas de pessoas mais próximas, mas ainda assim ninguém nunca se revela por inteiro (pois nem assim se conhecem), e tem segredos que não desvendaremos e armas que nunca conheceremos.

as pessoas são como espelhos e generosamente revelam muito de nós. Elas fazem, muitas vezes, vir a tona sentimentos, expectativas e necessidades que tentávamos camuflar. se abrir para esse autoconhecimento e abraçar a oportunidade é sempre um ótimo caminho de evoluir e se fortalecer, sobretudo.

sempre que você se abrir para analisar o que o outro te evidencia, vai descobrir MUITO sobre si mesmo. e vai perceber também que passamos 90% do tempo (ou mais) julgando as atitudes (ou não atitudes) do outro, sem tentar compreendê-lo e se compreender.

dia desses estava conversando com uma amiga que acabou o namoro recentemente e estava frustrada… frustrada porque ele não estava agindo como ela gostaria que agisse, frustrada porque ela jogou para ele a responsabilidade dos seus próprios sentimento e aí entrou numa onda de julgamentos.

por que que quando alguém vai embora de uma vez a gente costuma julgar que é insensibilidade, ou que não era amor de verdade?

sempre existem inúmeras interpretações para uma mesma situação… está nos olhos de quem vê, e por isso que é tão importante nos responsabilizarmos pelo que vemos e pelo que isso nos faz sentir.

é sempre uma escolha, e nosso maior sofrimento vem de ficarmos tentando julgar a atitude do outro, de recriminá-lo em vez de forcarmos em como podemos crescer e se fortalecer a cada situação, seja ela de encontros ou desencontros.

já parou para pensar que, às vezes, se uma pessoa vira a página de um relacionamento de uma vez, sem olhar para trás e sem deixar registros, pode ser o oposto de insensibilidade ou falta de amor? quem apaga foto apaga gatilho, não memória. essa pode ser só mais uma prova de quão importante você foi para ela, a ponto do desencontro ter que ser assim, agressivo, para não deixar feridas ou manter o ciclo aberto.

de novo… sempre existem inúmeras interpretações para uma mesma situação, só sofremos quando julgamos, porque aí tem ofensa. 

é comum dizermos que quando uma pessoa ataca a outra ela está, na verdade, se atacando. às vezes é isso mesmo, a incapacidade de se conscientizar dos próprios sentimentos, necessidades e frustrações. quando não sabemos a origem daquilo que nos incomoda, não importa de onde vem, a gente ataca, reage, cospe.

mas as vezes também é apenas o outro agindo da sua forma, dentro da sua verdade. e seria lindo se respeitássemos mais isso, acontece que sempre que colocamos o julgamento no meio de campo o que era expressão se torna golpe. você nem era o alvo, mas se coloca nessa posição e sofre.

a gente se autoengana toda vez que passa por uma situação de forma ignorante, na base da justificativa e do julgamento. quanto mais você se justifica, mais se distancia dos seus sentimentos e da sua verdade. e a cada justificativa você cria polaridades… coloca o outro numa posição de ameaça e aí, para se manter firme, precisa diminuí-lo, simplesmente porque não sabe lidar com aquilo de si que ele te revela.

é simples assim… se não tem julgamento, não tem ofensa. e só deixa de ter julgamento quando entramos no plano do sentimento, nos responsabilizamos e libertamos o outro desse fardo.

a beleza está nessa simplicidade, em separar as coisas, você e o mundo. ser inteiro e responsável.

deixar de lado o julgamento e expandir seu entendimento de uma situação envolve duas coisas: a sabedoria de olhar para dentro e entender o que isso te revela e te faz sentir, e a generosidade de respeitar a verdade do outro e sua forma de ser.

toda pessoa com quem nos relacionamos é para nós uma fonte de conhecimento, um espelho. quando você entende isso como generosidade e não como ameaça, aprende a lidar com as nuances do ser sem que elas se tornem um obstáculo para os relacionamentos ou uma fonte de sofrimento.

não seria lindo se todos pudessem lidar com as situações da forma que lhes faz bem, sem serem julgados por isso? então, fica a dica, pois não é só o outro que deixa de sofrer com isso, é você também <3.

 

  • Coisa linda esse texto. Neste exato momento estou em férias e estou sendo hóspede de uma pessoa com alto nivel de julgamentos e expectativas em relação às pessoas. Estava começando a ficar incomodado com a situação e seu post veio em boa hora me mostrar que eu tb preciso reduzir os julgamentos e expectativas em relação à pessoa. Muito obrigado!!!!!

  • Muito bom Marina…

    Não julgar é uma arte.

    Quanto menos julgamos, mais felizes somos…

    Não deveria ser simples?

    Abs

  • Danielle Melo

    Difícil não julgar, mas tudo muda quando entendemos que a responsabilidade de nossa felicidade somos nós mesmos, respeitar o próximo, respeitar os sentimentos alheios. Descobrir isso é muito legal! Acaba que o tamanho da tua expectativa é o tamanho da tua frustração. Muito bom Marina, como sempre!

  • Excelente texto Marina! Muitas vezes criamos expectativas sobre alguma pessoa, e depois que essas expectativas não são correspondidas, jogamos a culpa da “falha” na outra pessoa, sem pensar que nós somos os responsáveis por aquilo que criamos.

  • Aureliano Silva

    Excelente texto Marina. Quando entendi que “Cada um faz aquilo que acredita que é certo” passei a julgar menos, pois cada um toma as suas decisões com base na sua verdade e a minha verdade é diferente da verdade do outro. Podemos ter alguns pontos de vista parecido, mas nunca 100% iguais.
    Isso torna a vida mais leve.

    • Marina Teixeira

      Isso, isso, isso! 🙂

  • Lauriany Sá

    A maior dificuldade é se responsabilizar pelo sentimento e ação, mas quando isso acontece as algemas são arrancadas e temos o “poder” de decidir entre sofrer e sorrir.

    Post lindo S2

    • Marina Teixeira

      Já ouviu aquela frase, “você quer ser feliz ou quer ter razão?”

      Bem isso né, Lauriany.

  • Marcelo Augusto

    Maravilhoso.. Muito grato pelo texto Marina.

    • Marina Teixeira

      🙂

  • Joyce Mingorance Cavallini

    Como sempre me identifico muito com seu olhar sobre as coisas da vida. Aprendi sobre isso recentemente. Além de estar trabalhando para diminuir meus julgamentos, ter a compreensão de que cada um mostra-se conforme seu grau evolutivo. Ser menos exigente e ter um pouco de empatia até nos casos em que não concordamos com posturas, nos faz darmos menos poder a essas circunstâncias e trabalha nossa compaixão para com a gente e com o outro que julgamos errado.

    • Marina Teixeira

      Isso, Joyce, a situação perde força e o poder fica conosco 🙂

  • Andrea Gimenez

    Perfeito…me trouxe lágrimas aos olhos e iluminou meu ser .Um dos textos mais lindos,singelo e com um poder de mudança absoluto.Grato por compartilhar e transformar minha percepção de mundo..Que Deus continue abençoando o seu caminho para que vc continue iluminando o nosso.Grande bj

    • Marina Teixeira

      Obrigada pelas palavras, Andrea!
      Espero continuar conseguindo gerar esse tipo de impacto compartilhando o que pulsa aqui dentro de mim <3.