quanto mais você conhece de si e do outro, menos pode acabar conhecendo

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durante a faculdade, naturalmente simpatizei com algumas teorias psicológicas.

a psicanálise foi a que desde o começo mais me interessou. gostava em especial da sua complexidade e foi, inclusive, com lacan que tive uma relação quase de amor e ódio. depois de quase enlouquecer tentando entender o que ele falava, me apaixonei.

a gestalt e a psicologia analítica de jung também sempre estiveram no meu radar. mas jung, na época, era muito místico para mim. por mais que eu tivesse bastante curiosidade, meu lado cético que era diariamente alimentado pelos homens lá de casa (pai e irmão) não me deixava entrar de cabeça nesses estudos.

no fim, foi só depois que saí da faculdade que comecei a realmente me abrir para diferentes abordagens e conhecimentos. com influência do gabriel assumi a postura de não mais questionar tudo, e sim começar a me interessar por tudo.

eu achava que não era muito fã dessa coisa de tipos psicológicos, até que esses dias me vi super envolvida estudando eneagramas. a tania trouxe isso em uma de nossas sessões de coach e na hora já quis mergulhar no assunto.

o eneagrama surgiu como modelo matemático do armênio george ivanovitch gurdjieff para compreender o funcionamento do universo, no início da década de 20. gurdjieff afirmava que todos os conhecimentos da humanidade poderiam ser interpretados pelo eneagrama através dos seus movimentos e leis. assim nasceu, em 1970, o eneagrama da personalidade.

como ferramenta da psicologia, o eneagrama é um modelo de evolução do ser humano e um dos poucos sistemas de personalidade que ancora a noção de tipo na vida espiritual.

sentamos para ler toda a descrição do que seria o meu número e fiquei encantada. aquilo ali dizia muito sobre mim e eu achei o máximo. até orgulho senti!

foi muita identificação. até mesmo o que eu começava achando que não se encaixava comigo, em questão de minutos já estava dando exemplos.

o eneagrama lida com tipos e, de repente, eu me vi ali, apegada. estava achando tudo tão interessante… na hora pensei “wow, adorei meu número, não queria ser nenhum outro”. comecei a ver beleza e fui caindo na armadilha. alimentando meu estereótipo fui também criando minhas barreiras.

até que veio o clique e finalmente entendi porque eu nunca tinha sido fã do assunto… se você não estiver preparado, ele pode ser perigoso.

o conhecimento é poder e o poder é também sempre risco, a depender de na mão de quem ele esteja. se você recebe uma ferramenta e não sabe lidar com ela, ela pode se tornar uma ameaça. por que seria diferente com o autoconhecimento?

a identificação é um mecanismo psicológico indispensável para a formação da personalidade. já reparou como ouvir uma pessoa falando que somos de uma determinada maneira é muito mais difícil do que ouvir o outro falando de si mesmo e se ver nele?

pois então! todos nos identificamos com as características do nosso tipo e é justamente isso que nos coloca no risco de sermos enganados ou convencidos de que somos apenas isso, de nos confundirmos com nossos sentimentos e pensamentos e acharmos que nossa personalidade é limitada a certas características.

o primeiro clique foi esse, o do perigo. depois eu fui tentar entender os comos…

dois comos: a falta de humildade e o excesso de julgamentos.

eu deixei a humildade de lado quando comecei a pensar que eu queria mesmo ser aquele tipo e, consequentemente, atrelei a isso uma certa superioridade. eu estava me apegando a um esteriótipo sem considerar o conceito geral, e ao mesmo tempo estava, assim, anulando o propósito do autoconhecimento.

o perigo não está apenas em se conhecer a fundo e se recusar a mudar, por apaixonar-se pelo seu próprio ser. está também em não ser humilde para aprender com o outro e se tornar um expert em julgamento.

não é a toa que pessoas da área de psicologia estão sempre ouvindo “você tá me analisando?”… isso são os outros já supondo o mau uso do conhecimento, pois quanto mais você conhece de si e do outro, mais se sente no direito e na condição de identificar ou prever também os seus padrões.

agora imagina como isso se agrava se passamos a lidar apenas com tipos…

a ideia não é e nem nunca será apenas se conhecer, e sim entender num todo os movimentos do ser humano.

quando falamos em traços de personalidade corremos esse risco, o da tipificação, da limitação, de se fechar na sua caixinha e, assim, não enxergar nem a si e nem ao outro. identificamos-nos tão fortemente com as características do nosso tipo e passamos a depender tão intensamente de percepções condicionadas que acabamos por esquecer as nossas verdadeiras possibilidades e nos tornamos nossa personalidade ou falso self.

quando deixamos os julgamentos de lado e abraçamos a humildade, tudo muda. nos tornamos capazes de olhar por uma perspectiva dinâmica, que leva em consideração a influência que os demais traços exercem sobre um tipo. um dinamismo que é capaz de valorizar outras formas de expressão e de ser.

entender esse movimento é entender a beleza e a riqueza de nossa complexidade, da nossa existência e do nosso relacionar-se.

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no eneagrama, cada movimento (as flechas e pontos de contato) traz um ensinamento distinto sobre a personalidade, indicando padrões de defesa e de evolução. consequentemente, cada movimento significa uma oportunidade de crescimento e evolução, de se desprender de um padrão e caminhar para um todo, cada vez mais flexível e completo.

as flechas preveem alterações da personalidade durante períodos de segurança e de tensão, mas é muito importante entender que isso são tendências e não realidade, e que a partir disso existem inúmeras possibilidades.

assim começa a dança…

dançar por essas linhas é caminhar para o seu ponto de equilíbrio, aprender a buscar as características que mais te servirão em cada situação e combiná-las quando necessário.

a música são as circunstâncias, a dança em si é o caminhar conectado por todos os pontos, e a platéia são as pessoas que passam pela sua vida. dançar é caminhar de olhos abertos, se auto-observando, sem julgamentos e em busca da sua melhor expressão (e construção).

hoje não acredito mais em natureza estática. acredito que cada experiência que vivemos vai construindo a nossa natureza, aquilo que tenderemos a manifestar de forma mais instintiva, espontânea. mas acredito, acima de tudo, que independente dela podemos moldar a forma como pensamos, agimos e significamos as situações.

o grande engano está em enfrentarmos essa natureza como nossa realidade e, assim, nos identificarmos com o conteúdo dos nossos sentimentos e pensamentos. isso não é autoconhecimento, é autolimitação. é tirar o artista do palco e oprimir suas potencialidades.

a verdade é sempre um contato interior e inexplicável. a minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. – clarisse lispector

depois de muito refletir sobre o assunto eu entendi que toda identificação será sempre apenas o ponto de partida, nunca o de chegada.

entendi também que o objetivo do eneagrama, assim como de todo o processo de autoconhecimento, é colocar de lado a personalidade e dar vida ao observador interno.

nunca tinha pensado nesse conhecimento como algo perigoso, mas hoje vejo que sem humildade e com julgamento se conhecer pode ser mais limitante e ameaçador do que saber nada de si.

 

  • Márcio Merçoni

    Adorei o seu artigo. Sou psicólogo e Gestalt-terapeuta (além de Coach)…
    Gosto de pensar a vida como fluxos de movimento… um self flutuante… que paira ao que o vento pede… sem resistir, mas compreender o que cada momento/instante sugere em nossas ações.
    Pensemos no movimento da Terra… em cada um dos 365 dias que ela leva para dar uma volta ao redor do sol, o planeta reflete uma característica, ainda que quase imperceptível. Achamos que só existem 4 estações, mas na verdade, temos 365 dias de mudanças… num dia cai uma folha, no outro dia outra folha… num dia nasce um botão, no outro uma flor… e por aí vai.
    Triste é ver o aprisionamento em formas/contextos… como a famosa música de Gabriela, Cravo e Canela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim… Gabriela” (eternizada na voz de Gal Costa).
    Conhecer-se é libertar-se de velhas noções, e libertar-se é fluir pelo o que a vida pode te oferecer. Senão, seríamos somente verão, ou outono, ou inverno, ou primavera!!!

    Que bom que a psicologia ainda te acompanha… =)

  • Adriana Pestana Greenhalgh

    Nossa Marina, cada texto seu me surpreendo com a sua capacidade de análise das coisas…e com a minha de absorver o que preciso rssss….Muito bom ler textos como esse, que nos fazem expandir a consciência e ao mesmo tempo observar a realidade.Gratidao pela oportunidade de ler textos tão bem escritos e sinceros!

  • CAROLINA FERRAZ DINIZ

    Estava sentindo falta dos seus textos Marina! Conheci vc através do MU 2.0 que acabei de participar.Te acho de uma sensibilidade incrível ! Sutil mas ao mesmo tempo cirúrgica…rs Venho trilhando esse caminho do autoconhecimento já tem um tempo….Terapia, Path Work, MU…Enfim , é maravilhoso e meu progresso é imenso, mas confesso que seu texto me confortou no sentido de que querer conhecer demais também pode ser uma armadilha para querer seguir um padrão que não existe, ou que talvez nós simples mortais não podemos defender como ideal. O ideal é nossa capacidade de fazer uma mesa redonda com a gente mesmo quando se fizer necessário e a partir do conhecimento que adquirimos sobre nós e o outro chegar a uma conclusão leve e capaz de nos fazer entender que cada um tem sua essência e que as diferenças são nossas aliadas e não inimigas! Obrigada! Bjs

  • Guilherme Costa

    eu vejo esses movimentos como um pouco de empatia
    você pode se posicionar no lugar do outro e sentir um pouco
    mas também vejo como perigo porque ser o outro é deixar de ser a si mesmo
    deixar de ser a si mesmo é perder-se
    perder-se é deixar de ser egocêntrico e cair numa massa mundana onde tudo se converge para sabe-se lá o que
    eu faço terapia atualmente porque sou diagnosticado esquizofrênico
    mas realmente é um caminho de auto-conhecimento
    porque percebi coisas de mim como a perversão e eu nem imaginava que sofria disso
    é doloroso se encontrar com a verdade
    mas é o caminho menos doloroso do que ser cego e descontente ou cego e avesso a tudo isso
    desculpa ter falado alguma coisa aí
    mas eu sinto falta de conversar com alguém mesmo passando por terapia

  • Alessandra Cruz

    Que belo texto Marina! Obrigada por me colocar a pensar um pouco mais a respeito do auto conhecimento. Fantástico tudo o que escreveu!

  • Joyce Mingorance Cavallini

    =)

  • Lucilene Maidana

    Super interessante a sua análise a respeito do assunto, Marina. Já ouvi falar de Eneagrama, e estes dias fui convidada a fazer um curso sobre, e o seu texto me deixou mais curiosa ainda a respeito. Obrigada! =)