o lado negro da perfeição – como ela alimenta seus medos e te puxa para trás

 

quantas vezes você já não se pegou dizendo ser perfeccionista para justificar algo que não fez? ou já não disse que esse é seu maior defeito, sobretudo em momentos de procrastinação?

mesmo sabendo que tem algo estranho nisso, a maioria das pessoas diz isso com um certo orgulho, pois ainda confunde perfeição e progresso.

semana passada eu aceitei um super desafio, sabendo o quanto ele vai ser importante para o meu crescimento. mesmo tendo essa consciência, depois de uns dias, comecei a me incomodar com a exposição que vai me gerar. acredite, tive até pesadelo e no final de semana acordei com uma nuvenzinha preta em cima da cabeça fazendo pressão para eu deixar o medo vencer e voltar atrás, pedir para sair de campo.

consegui me manter firme pois lembrei do ballet, da adrenalina que eu sentia toda vez que ia subir no palco, das mentalizações que fazia toda noite dias antes das apresentações e do quanto tudo isso era saudável e importante para minha evolução.

o ballet me ensinou que a masterização não dá descanso, que para sermos os melhores o treinamento é diário e a disciplina, ingrediente essencial. ao mesmo tempo ele sempre me deixou claro que a perfeição é uma ilusão, ainda que algumas vezes eu tenha deixado meu ego ignorar isso, como quando eu me recusei a dançar meu solo num festival porque não tinha ensaiado o suficiente e não estava me sentindo preparada.

na época, acho que muitos viram isso como uma atitude madura de uma menina de 13 anos, eu mesma me convenci disso. mas analisando hoje eu vejo que foi apenas fuga da minha parte, medo de me expor e fazer feio… caí na armadilha da perfeição.

buscamos tanto evoluir que às vezes não percebemos que o perfeccionismo não é uma busca saudável pela excelência, por fazermos sempre nosso melhor. talvez você nunca tenha parado para pensar quanto a busca pelo perfeito pode ser perigosa e denuncia nossas fraquezas internas, e é sobre isso que quero falar hoje…

o perfeccionismo não é uma postura positiva que adotamos para evoluir dia após dia, é um processo cognitivo de comportamento, um jeito de pensar, sentir e agir que nos faz andar para trás: “se eu parecer perfeita, tiver um trabalho perfeito e uma vida perfeita, vou conseguir evitar, ou pelo menos minimizar, a vergonha ou o julgamento”.

ou seja, não se trata de um jogo interno, e sim de uma comparação que envolve o outro e coloca nosso ego em jogo.

vivemos numa cultura obcecada pela perfeição: o trabalho perfeito, o relacionamento, o corpo perfeito… não apenas pensamos que a perfeição é possível, como provável, e a tecnologia está constantemente alimentando essa ideia. isso tem consequências e hoje quero falar de três delas.

essa nossa fixação pelo estado ideal de perfeição nos faz perder a capacidade de negociar conquistas, de lidar com o fracasso ou, simplesmente, com o real.

uma pesquisa feita por bob goldman com atletas de alto nível provou os perigos da nossa moderna obsessão pelo perfeccionismo. tais atletas foram questionados se eles tomariam uma droga que lhes garantisse a medalha de ouro, mas que os mataria em 5 anos. acredite, 50% disseram que sim.

wow. o resultado foi tão chocante que fez goldman repetir a pesquisa mais 5 vezes, encontrando os mesmos resultados.

isso prova que para muitas pessoas a perfeição não é uma ilusão. se por um lado isso leva a ações extremistas como essa, por outro, em vez de empoderar as pessoas, está na verdade as enfraquecendo e alimentando cada vez mais o sentimento de que nunca somos bons o suficiente.

e aqui entra o segundo ponto: a luta pela perfeição não é uma luta por chegar no seu melhor, e sim uma luta contra o medo.

medo do julgamento do outro, medo de fracassar e expor suas fraquezas. medo de sentir culpa e vergonha

o perfeccionismo é seu escudo e, automaticamente, uma estratégia de auto-defesa. é sua tentativa de se proteger do que o outros vão pensar, é o medo de que o mundo te veja como você realmente é, de que enxergue suas fraquezas e consiga medi-las.

quando o medo vem nossa primeira reação é sair de cena, entrar no casulo e procrastinar… para lidar com ele nos escondemos, e para nos protegermos do outro acabamos nos impedindo também de ser vistos.

talvez você nunca tenha pensado em como sua busca pela perfeição evidencia suas fraquezas, expoõe seus medos e rouba sua autenticidade.

tentar sempre ser e fazer o seu melhor é saudável. isso é foco, disciplina, obstinação. é seu comprometimento com a sua evolução e com o que você quer. o perfeccionismo deixa de ser saudável a medida que cria fantasmas e alimenta medos que só existem porque a história deixa de ser sobre o que eu eu quero e passa a ser sobre o que as pessoas vão pensar.

por isso que trabalhar sua autenticidade é uma ótima forma de afastar tudo isso de si e abraçar oportunidades. quando somos autênticos, nos damos ao direito de ser vulneráveis, imperfeitos e de criar limites, para nós e para os outros.

a vida não espera e o mundo não para para chegarmos ao estágio da perfeição, e enquanto você estiver buscando isso vai ver muitas oportunidades escorrem pelas suas mão. esse é o terceiro ponto que queria comentar..

se você mira apenas o plano e o mundo ideal, nunca vai conseguir concretizar seus objetivos. vai deixar o sentimento de não estar preparado, o receio de fazer feito e a preocupação com o que as pessoas vão pensar passarem por cima e te tirarem do jogo.

a perfeição não existe e ainda bem que não, pois é isso que nos permite e nos incentiva a estar numa constante reinvenção do que fazemos, pensamos e somos. e não tem nada mais bonito do que isso, sermos mudança, reconstrução.

é ela que nos apresenta o imperfeito e abre o caminho da liberdade: vai lá e faz, cada vez melhor e sem medo.

dizem que os artistas nunca finalizam uma obra, eles apenas aceitam que é hora de não mexer mais nela, isso porque eles entendem que o imperfeito é parte do processo de criação e de existência, que tudo tem um tempo de ser e que quando o ultrapassamos, perdemos oportunidades.

a mesma coisa acontece comigo aqui no blog. toda vez que eu releio algum post eu tenho vontade de mudar várias coisas. me seguro, pois considero que isso faz parte da história que contamos, mas a vontade vem, afinal, sempre que volto em algo que concretizei eu já sou outra pessoa e isso torna impossível atingir o resultado perfeito. o cenário muda e o olho do observador muda, é o artista que a cada pincelada vê algo novo.

se a gente não aceita e não coloca um prazo como critério para definir que algo está pronto, entramos num looping sem fim, de procrastinação e frustração.

por mais que você pesquise, planeje e treine com muita intensidade, enquanto estiver apenas nos bastidores nunca vai saber 100% o que te espera. quando as luzes se acendem, a platéia silencia e entramos em campo, todas as variáveis e perspectivas são alteradas. dependendo do campo e dos adversários o desafio é outro

por isso não tem segredo. ou você entende que precisa ir mesmo sem se sentir preparado, ou vai ficar para trás.

não existe isso de ficar pesquisando, planejando e aperfeiçoando eternamente. o plano perfeito simplesmente não existe, por mais que muitas vezes, antes dele se materializar, a sensação seja de que o encontramos.

acredite, não importa quão perfeito você acredite que tenha deixado algo que criou, você provavelmente vai mudar de opinião quando isso se materializar.

não compare seus bastidores com o palco de outra pessoa, isso inevitavelmente vai te barrar. a masterização só acontece quando já estamos em campo e seu objetivo tem que ser em se manter no mindset de crescimento, vivendo, experimentando, aprendendo e evoluindo.

de jeito nenhum estou dizendo para baixar o seu padrão e aceitar qualquer coisa, qualquer performance e qualquer resultado. você tem que buscar o seu melhor, colocar toda sua intenção e energia nisso, mas se ficar sempre ajustando, ajustando e ajustando, tudo que vai acabar fazendo é procrastinar e deixar seus medos se manifestarem.

“se você não tem vergonha da primeira versão de um produto de lançou, é porque lançou tarde demais” – reid hoffman

aproveite esse sentimento simplesmente para estar sempre aprendendo e evoluindo, e nunca para buscar algo que vai, não verdade, te paralisar.

não confunda perfeição com progresso, pois acredite, o perfeccionismo vai matar os seus objetivos e sua força própria, é ele que diferencia os sonhadores dos vencedores, os planejadores dos executores.

se um artista nunca acaba suas obras, apenas aceita lançá-las, por que pensar que você teria que ter algo 100% concluído e perfeito para entrar em campo?
enquanto você estiver buscado a perfeição, não vai tirar do papel. não espere pela sensação de “esse é o momento”, ela sempre vai ser passado.

não tem nada de feio ou vergonhoso em começar pequeno, em errar e ir crescendo o longo do caminho. pelo contrário, admirável são aqueles que tem autoconfiança para agir assim e sabedoria para aproveitar as oportunidades.

o desafio que tenho pela frente me fez refletir sobre isso e, mesmo sabendo que ainda não estou pronta, já consigo ser grata a ele.

agora eu queria saber de você… você se considera perfeccionista? tem aproveitado as oportunidades e se arriscado, ou seus medos ainda te paralisam?

 

  • Arlene Batis

    Não sei se sou perfeccionista, sou do tipo que topa qualquer desafio, mas em muitas situações, não consegue lidar com os medos, frustrações e rejeições. Me incentivo, me impulsiono, mas em alguns momentos é como se eu me visse em cena, e o eu em cena olha pra o eu crítico e diz “vc sabe que isso é uma farsa, que você não se ama verdadeiramente e não confia em si”… felizmente, acabo não dando ouvidos a mim mesma e sigo, o problema é que a cada recomeço, já perdi tempo e diversas outras oportunidades. Não sei se a minha insegurança é no fundo perfeccionismo, mas só sei que quero acabar com essas sensações e me aceitar do jeito que eu sou, quero ter orgulho de mim. Só isso.

  • Camila Cancian

    Muitas vezes somos perfeccionistas pois acabamos nos comparando a outras pessoas, o que nos atrapalha.. pois, como você disse, temos vergonha de fracassar ou ser pior que o outro.. Mesmo que isso seja incoscientemente.
    Por muito tempo me escondi atrás desse perfeccionismo, atualmente estou tentando ir para o campo de batalha como posso.. 1% melhor a cada dia.
    Gratidão por mais esse texto top!!!

  • Camila Cancian

    Muitas vezes somos perfeccionistas pois acabamos nos comparando a outras pessoas, o que nos atrapalha.. pois, como você disse, temos vergonha de fracassar ou ser pior que o outro.. Mesmo que isso seja inconscientemente.
    Por muito tempo me escondi atrás desse perfeccionismo, atualmente estou tentando ir para o campo de batalha como posso.. 1% melhor a cada dia.
    Gratidão por mais esse texto top!!!

  • Entrar no jogo 100% preparado é perder em dobro:
    1) Perder por procrastinar.
    2) Perder a chance de aproveitar as oportunidades que surgirão durante o processo de melhoria contínua (Kaizen).

    “se você não tem vergonha da primeira versão de um produto que lançou, é porque lançou tarde demais” – reid hoffman
    Essa frase eu vi no livro Manual do CEO de Josh Kaufman.

    Lembrei da seguinte passagem deste mesmo livro:
    “Como utilizar um livro: folheie, passe os olhos e faça uma leitura rápida.
    Acredite ou não, você NÃO precisa ler um livro de cabo a rabo para se beneficiar:
    uma folheada pelo livro pode lhe render melhores resultados com menos esforço.
    Passe os olhos periodicamente pelo livro até encontrar uma seção que chame a sua atenção
    e comprometa-se a aplicar o conceito ao seu trabalho por alguns dias.”

    Pessoas perfeccionistas em excesso acham que ao iniciar um livro precisam ler da capa até a contracapa,
    o que prejudica o processo de aprendizagem, perdem a oportunidade de estar lendo um livro melhor, etc.

    Ótimo post, Marina.
    Bom dia, até a próxima.

  • Maria Eduarda

    Muito bom o texto! Precisava muito ler algo assim. Sou muito perfeccionista e exigente comigo mesma e com os outros. Tenho que começar a aliviar a pressão do “ser perfeito” o tempo o todo. Com certeza esse texto vai me ajudar, muito obrigada!

  • Maria José Lourenço

    Marina me faz refletir toda semana sobre questões do meu dia a dia e essa me pegou em cheio. E hora de ir em campo e para de dizer que estou me aperfeiçoando, quando na verdade estou procrastinando! bjs Vale Marina

  • Fernanda Patrícia Suguiama

    Quem sabe a “perfeição” não possa ser, na verdade, uma contínua evolução – em vez daquele patamar alto e estagnado que muitos acreditem existir? Assim, ela aconteceria toda vez que buscamos aprender e aplicar o melhor que podemos ser naquilo que nos propomos a fazer. E essa é a parte desafiadora!
    Belo texto e bela reflexão, Marina!
    Gratidão.

  • Romullo Reis

    Ótimo texto. Já perdi várias oportunidades ao longo da minha breve vida, primeiro
    pelo perfeccionismo e depois somado ao ego inflado, e orgulho ficou pior.
    Recentemente, há uns 2 anos, passei a deixar esse tipo de pensamento e ações
    tenho melhorado consideravelmente nesses aspectos, e começou principalmente após o
    MovingUp, e seus textos também tem ajudado, sou grato a ambos.

  • Camila BC Martins

    Oi, Mamá!
    Adorei o texto!
    Um beijo! =)

  • Vanessa Costa Costa

    Oi Marina, sou perfeccionista e em vários momentos me senti estagnada por buscar a perfeição…seu texto me fez refletir bastante! Mas estou na busca e trabalhando o meu lado águia cada vez mais, buscando aprender coisas novas, experimentando e testando….Um forte abraço!

  • Aline Barretto

    Marininha,
    Sempre fui. Confesso que muitas vezes deixei de fazer algo por achar que ainda não estava pronta. O medo me fazia procrastinar.
    Hoje encaro, ainda q tenha medo ele não me trava. Sigo em frente!
    Obrigada
    Beijos

  • Emanuela souza

    Oi, Marina! Não poderia deixar de comentar esse post! sensacional tudo, me identifiquei com cada palavra e pensamento que você relatou aqui…Por muito e muito tempo, busquei minha perfeição, em todas as áreas da minha vida, e quase sempre me frustei e me preocupei bastante com tudo, uma vez que não enxergava a diferença crucial entre perfeição e progresso. Engraçado, que ao ler o post, eu ria de me mesma pensando “como fui boba esse tempo todo…”kkkkkk, tendo em vista que passei a enxergar as armadilhas dos medos e da perfeição a pouquíssimo tempo. Porém, sou grata a esse “tempo de cegueira”, pois sem ele eu jamais conseguiria mudar, evoluir, né verdade?! muito boa essa discussão,bem pertinente como que estou vivenciando atualmente,são tantos desafios, aos quais estou conseguindo enfrenta-los exatamente porque escolhei deixar de lado o perfeccionismo e aceitar minha autenticidade. Parabéns por conseguir passar algo tão complexo de forma tão simplista! beijos, Mari!

  • Heloisa Albuquerque

    Costumo dizer que, às vezes, o ótimo é inimigo do bom!

  • Samuel Jose de Abreu

    Tenho dito que sou um ser em plena transformação e construção, e que não tenho vergonha de mudar de opinião, e esse texto veio ao encontro de um bate papo com minha namorada com mais de 25 anos de estrada, esta semana, sobre o tema perfeccionismo. Vou solicitar que ela leia suas lições, pois, por incrível que isso possa parecer, disse exatamente o que você postou… Se estamos em construção e desconstrução, é obvio, que a perfeição não existe. Parabéns Marina.

  • Juliana Oliveira

    Nossa, era o texto que eu precisava ler. Estou em uma luta contra a procrastinação, e entendi que é realmente isso, pois bate aquele desanimo por achar que não esta fazendo as coisas perfeitas o suficiente, e que não sou capaz. Me critico muito, e isso me paralisa. E sinto que já esta na hora disso tudo de mudar.
    Adorei o post, gratidão Marina.

  • Parabéns pelo Post!
    me identifiquei completamente com esse conteúdo…
    e me fez refletir a quantidade de oportunidades que perdemos ao longo de nossas vidas por achar que tuuuudo deveria ser “PERFEITO”…

    engraçado como um tempo atrás para algumas coisas na minha vida eu achava muito mais legal e interessante ser falho… e para outras não admitia que tivesse um resultado mediano… só aceitava o “Estado da Arte” rsrs

    e isso durante muito tempo me paralisou…
    Tenho exercitado essa coisa de “botar a bola no jogo” e aos poucos tenho sentido um desapego com relação ao “perfeccionismo”.

    Olha, parabéns pelo Post.
    vou acompanhar o Blog.

    Um abraço.