onde mora o erro da nossa comunicação?

letter

 

esse final de semana fiquei pensando sobre os ruídos que vivemos. que vivemos porque criamos…

tudo que existe sem harmonia, que causa alvoroço, confusão…

sexta-feira alguns samurais da equipe (meus times diretos) estavam aqui em pinda. organizamos um workshop para falar sobre gestão de projetos e organização de times. e foi numa dinâmica no gramado que surgiu toda a reflexão desse post.

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my crew.

enquanto todo mundo estava pensando nesses temas (afinal, era esse o propósito da atividade e do nosso workshop), começou a gritar em mim um outro ponto de atenção…

o que é comunicação?

segundo o google, 1. ação de transmitir uma mensagem e, eventualmente, receber outra mensagem como resposta; 2. a informação transmitida; seu conteúdo.

esse dia e todo o seu contexto despertaram em mim a sensibilidade para o fato de que muitas vezes o que nos falta não é a mensagem, e sim o tato para identificar qual a melhor forma de transmiti-la. normalmente, inclusive, nos transborda informação, mas nos falta (e muita) a linguagem certa (para não dizer ideal).

isso porque, não sei se você já percebeu, mas na maior parte do tempo a gente lida com a informação de forma ansiosa, precipitada e não generosa, e assim nos perdemos no nosso próprio ritmo.

impressionante como isso me intrigou em grau, número e gênero… como podemos deixar a informação nos cegar, nos reprimir e transformar oportunidade em limitação? já sentiu isso?

deixa eu te contar como foi a atividade pra gente acertar a comunicação aqui e ficar na mesma página :)

a orientação era: “formem um círculo e caminhem livremente dentro desse perímetro. escolham mentalmente duas pessoas presentes e continuem caminhando. parem onde estão e agora, sem se falarem, formem cada um com as duas pessoas que escolheu um triângulo equilátero”.

éramos onze e repetimos essa dinâmica duas vezes. a primeira sem saber quem eram os trios que formavam cada um dos triângulos; a segunda, organizada por um líder escolhido aleatoriamente e com todos podendo falar quem eram os vértices dos seus triângulos.

já pode imaginar qual das duas foi mais bem sucedida?

sim, a primeira.

éramos onze…

quando estávamos em silêncio, apenas sentindo e observando, a coisa fluiu e chegamos numa montagem possível muito mais rápido. porém, quando introduzimos na jogada pontos de referência e tivemos a informação de todos os triângulos dos quais cada um de nós fazia parte, começamos a nos movimentar mais rápido e deu tilt.

parecia que quanto mais sabíamos, mais a criatividade murchava, mais difícil ficava imaginar a resolução daquele problema, imaginar as diferentes posições e distâncias que 3 pessoas podiam explorar para se posicionar.

às vezes a pressão coloca a gente num estado de stress positivo no qual conseguimos transformar problemas em oportunidades. nesse caso, queríamos solucionar o mais rápido possível o desafio, mas começamos a enxergar mais problema do que solução.

“mas se eu mexer, fulano vai mexer, aí ciclano vai mexer e não vai ter fim”.

essas falas começaram a aparecer e essa ansiedade me incomodou. fiquei pensando na primeira tentativa, em que nada sabíamos. estávamos calmos, atentos, sensíveis, generosos, abertos…

o propósito da atividade era mostrar que quando somos líderes de nós mesmos tomamos decisões mais facilmente e melhor, trazemos para nós a responsabilidade e damos um jeito de executar. por outro lado, quando somos liderados por alguém, perdemos nossa força, nossa capacidade criativa e o sentimento de estarmos no controle na situação.

mas de novo, algo menos padrão gritava aqui dentro…

sem falar estávamos nos movimentando lentamente, cheios de delicadeza, sem emendar um movimento em outro… a generosidade ali estava em deixar o outro dar seus passos, trilhar seu caminho e, assim, ter uma melhor percepção de quais passos mais faria sentido eu dar.

na primeira tentativa fomos protagonistas, na segunda fomos reféns… não apenas de uma pessoa que queria atua como líder… fomos reféns, principalmente, uns da ansiedade dos outros. do pensamento estratégico, mas não global e generoso, de cada um. fomos insensíveis e demos mais voz à palavra do que ao movimento.

aí vi surgir o gargalo. erramos a linguagem.

me veio à cabeça o predador, que fica por um bom tempo em silêncio e imóvel apenas observando o padrão de comportamento da sua presa, para então dar o bote de forma certeira. se ele tentasse interagir com a presa, de fato essa fugiria. seria um erro de linguagem.

lembra, comunicação é a transmissão de uma mensagem. não importa de que forma ela aconteça, importa apenas que seja eficiente.

e quando vi ali 11 pessoas se falando, tendo a informação sobre o papel que cada um exercia naquela composição, e ainda assim super ansiosas sem ter certeza de qual caminho seguir, tive certeza que tínhamos errado a linguagem. que ali a informação era o de menos.

no caso, a meu ver, a linguagem ali era a velocidade do movimento. não foi à toa que foi assim que se deu o melhor encaixe… em silêncio e lentamente. com percepção e generosidade.

o mindset inovador exige que a gente destrua o que já tem e comece do zero.

veja, não estou falando que você não pode definir pontos de referência ou que não deve colher o máximo de informações que pode antes de fazer algo… estou apenas dizendo que precisamos encontrar a melhor linguagem para cada momento. a melhor expressão e conexão.

isso porque a mente às vezes nos engana… às vezes você acha que ela tá colhendo para somar, mas ela está na verdade buscando apoio, e assim ela se prende, se limita. e você acaba falhando na transmissão da sua mensagem.

isso pode significar achar apenas problemas em vez de soluções, murchar sua criatividade, perder o timing da inovação, perder a emoção de um momento…

já parou para pensar sobre isso, sobre a linguagem que você tem escolhido para se expressar nas diferentes situações em que se coloca? a forma como vem tentando se comunicar com as pessoas?

nesse caso, muita gente achou que o que fazia a diferença ali era a informação e o pensamento estratégico. para mim (e isso tá claro como água na minha cabeça até agora), era apenas a velocidade com que nos movimentamos, que nos fazia ser generosos e nos permitia ir além, olhar o todo antes de nos considerarmos parte de qualquer coisa.

às vezes a linguagem é mesmo a palavra ou um pensamento super estratégico, mas às vezes pode ser apenas um olhar, um movimento, ou mesmo o silêncio.

quando devemos usar uma e usamos outra criamos ruídos, gargalos…

não sei ainda quanto eu faço disso nas interações do meu dia a dia. me atentei para isso apenas sexta-feira, e agora estou me investigando.

quis compartilhar aqui para te convidar a pensar sobre o assunto também… será que você não pode estar se sabotando em algumas situações por estar se comunicando da forma errada? já pensou que algo pode estar dando errada não por causa do conteúdo, e sim da linguagem que vem usando?

acho que é um tema para se refletir…

estou encucada até agora e adoraria saber aqui nos comentários o que pensa sobre isso :)

 

  • Alice Ramos de Oliveira

    Já tentou isso em um Retiro de Palhaços????
    Agimos sem perceber apartir de uma energia, começar do zero sempre, ás vezes não é muito bom e nem possível, ficar no “médio” é chato e sem propósito, avaliar um pouco, ativar a percepção e intuição só é possível em cia.
    Mas só me espantou a informação vinda de o significado de tal palavra via google, na minha época era o Aurélio, tadinho, ficou em uma casa lá em Maceió toda detonada, em meio a papéis que estão amarelando e que o vento já está quase levando….pobre da nossa história. O texto sensacional, mexeu em raizes soltas, que ótimo!

    • Carlos Alberto de Arruda

      Seja o movimento, seja o fluxo, apenas a velocidade com que nos movimentamos, que nos faz ser generosos e nos permite ir além, olhe o todo antes de se considerar parte de qualquer coisa, e aí você sera como o mar, sempre em movimento, nas direções necessárias para a mudança e seu autoconhecimento…sempre no flow.

      • Alice Ramos de Oliveira

        como escrevi, mexeu nas raízes soltas kkkk

      • Guilherme Costa

        uma vez eu tava num congresso da Intel. A mulher disse siga o fluxo. Eu parecia um elétron na nuvem eletrônica. Só faltou eu entrar nos bastidores porque eu fui andando e andando completamente livre. Só olhei, mas dei minha ideia. Deixei minha marquinha lá. Quem sabe um dia eu volto.

  • Thomaz Ribas

    uau… essa foi a reflexão mais interessante que ja vi com relação a essa dinâmica. parabéns e obrigado por compartilhar !

  • Lucia Amato Muner

    Impressionante como me identifico com sua maneira de ver a vida! Fico imaginando você com minha idade, 58 anos, feitos agora em 15 de janeiro. Você é capricorniana, desculpe-me os céticos nesse assunto, até o pescoço! Vivo passando a limpo meus pensamentos, a cada segundo. Esse seu texto traz uma presença impressionante! Fico muito feliz em saber que existe alguém como você e o Goffi, pessoas que procuram ser absolutamente honestos e íntegros com seus proprios sentimentos e pensamentos. Te admiro demais.

  • Mariana, bom dia. Nossa mente, nem sempre, é o melhor interlocutor, pois ela sempre estará no modo proteção. Ela fará e buscará respostas que nos dê melhor conforto, menos dor, menos incômodo, e, claro, menos conflito. O Tigre, que temos em nossa mente (leia o livro Vença o Tigre, que aborda, também isso) grita e se incomoda quando tentamos algo que fuja dos nossos padrões. Portanto, as vezes, o melhor pensamento não é o nosso pensamento, carregado de crenças e possíveis limitações. Mas ele é uma referência e aí que acontece o maior combate: a nossa voz interna e o nosso processo mental. E dele nasce a sabedoria. Um abraço.

    • Guilherme Costa

      Então, eu li seu comentário e pensei: puxa vida, nascer a sabedoria. Será que é aqueles flashes que tenho que dizem uma ou outra coisa sobre algo? E eu nunca memorizo? Quer dizer que eu deixei sabedoria pra trás porque fui um tolo. Só posso pensar isso.

      • Olá Guilherme, bom dia. A palavra sabedoria tem várias formas de se definir. Desde a sabedoria divina até a saberia popular. No comentário me referi ao nosso processo de tomada de decisão. As vezes ir somente pela voz interna pode gerar limitações. Veja o exemplo nos casos de fazer uma atividade ou de ir além dos limites. A voz interna pode falar: “você não precisa”; “pra que isso?” “Você merece um descanso”. “Pare, já está bem assim”. E por aí vai. No meu entender a sabedoria sem ações é como um livro fechado numa biblioteca. As pessoas que denotam saberia, são as que aplicam seus processos de pensamento e, com essas ações, demonstram a qualidade da sua inteligência. Puts, esse papo ficou muito filosófico…rsrsrsrs Um abraço.

        • Guilherme Costa

          Toni, se fosse pela minha voz interna ou vozes, porque sou diagnosticado esquizofrênico… eu já tinha feito várias loucuras. Minha voz interna já disse coisas do tipo ai ai ai ai ai ai ai ai ai e eu não entendi até agora o que significava isso. Tenho até de falar isso com minha psicóloga e dizer que tô pensando inconscientemente e não consciente. Processos de pensamento… tá difícil hoje hein rsrs saiu do quintal e entrou na floresta e literalmente uma floresta a ser desvendada nosso pensamento. O único processo de pensamento que conheço é o looping infinito e daqueles que você entra como em um redemoinho e caí na angustia, no desespero, na agonia. Aproveitando, vou meditar um pouco, do jeito parar e ouvir, tô precisando. =)

          • Marcelo JR

            Que bacana Guilherme, sua abertura para com o sei diagnóstico, A meditação é o inicio da liberdade e da sabedoria, através dela nos desidentificamos com nosso ego/mente insanos e nos tornamos senhor de nós mesmos. Um abraço e tudo de bom!

  • Adriana Pestana Greenhalgh

    Fantástico…. impressionante como me identifico com suas reflexões e elas sempre veem no momento certo…esss tal conexão é o que venho buscando na minha vida pessoal e profissional, pois ela faz toda a diferença mesmo! Quero me conectar melhor mas às vezes vejo que o excesso de conhecimento me limita um pouco…vejo que é hora de desacelerar de verdade e deixar vir toda a minha criatividade para colocar tudo no seu lugar….parabéns querida essa reflexão logo no início do ano veio em muito boa hora…um grande abraço!

  • Marcela Camargo Lins

    Boa tarde Marininha! Durante um treinamento vivencial de desenvolvimento humano (inclusive recomendo demais o trabalho da Elleven DH – fica no Vale do Paraíba; a maestria do trabalho deles mudou minha vida) fiz esse exercício do triângulo que também me levou a ter muito insights sobre nossa maneira de comunicação. Um livro que li depois deste exercício foi “Comunicação Não Violenta”, de Marshall Rosenberg. Recomendo fortemente esta técnica!!! Obrigada por compartilhar com a gente sua arte! Admiro demais o trabalho de vocês! Beijos!

  • Ana Cristina

    Excelente Marina!! Sua sensibilidade transborda!! Engraçado que a comunicação que foi um forte fator evolutivo para nossos ancestrais e é revolucionária até hoje, ainda tem essas nuances que às vezes nos passam despercebidas, mas fazem toda diferença numa comunicação realmente eficiente!! Show os seus textos!! Obrigada!!

  • Guilherme Costa

    Muito bom Mariana. Eu já fiz uma dinâmica de grupo e não tivemos um líder. Devíamos dar as mãos e apenas sair do nó de um círculo. Os líderes surgiram e também se foram. Você tá muito certa de que perdemos em liberdade de ação por agir em grupo. Não sei se foi isso que quis dizer. Eu entendi sua mensagem. Só estou colocando com as minhas palavras aqui. Sabe, não sei se é um problema meu, de comunicação com meu gato, mas ela não me deixa em paz quando preciso fazer minhas coisas e fica cobrando atenção. Tem dias impossíveis e dias possíveis. Hoje, agora, me deixou quieto no meu quarto. Paz, enfim. Mas essa paz vem a custa do que? De um animalzinho ir dormir ou eu não dar atenção pra ela? Sabe, comunicação poderia resolver isso. Difícil. rsrs É um gato. Como se comunicar com um gato e pedir tempo pra fazer suas tarefas diárias? Defeito meu não conseguir com ele aqui do lado. Sim, é defeito meu porque eu devo respeitar o espaço dele e ele tem a casa toda de espaço. Minha vida toda é o espaço dele. Já tomei me dizendo que não queria mais ter gatos. A gente também experimenta muitos gargalos na computação. Entre dispositivos. Sim, é problema na comunicação também. Quanticamente falando poderia ser resolvido pelo fato de duas partículas estarem em entrelaçamento quântico. Vida real. Alguma dica?

  • cynthia cardoso

    Maravilhoso Marina !! Eu até reli pra mergulhar mais 🙏🏼 Será a reflexão da semana

  • Chiluana Freitas

    Com certeza Marina…às vezes achamos que estamos nos preparando, mas vejo como uma sabotagem…Não sei se todos são assim, mas quando sei que vou fazer algo e tenho tempo para preparar minhas primeiras idéias são sempre as melhores..depois vão vindo pensamentos que vão podando toda a graça do negócio. Mas acredito que o inesperado também traz uma emoção meio de gelo na barriga.

  • Ana Do Adriano

    Quando li, lembrei-me do fato de em uma discussão ou decisão termos que escolher entre “ser feliz ou ter razão”.
    Se prezamos pela boa comunicação, ter ou parecer ficar com a razão pouco pode importar.
    Beijo Marina, vc me ajuda muito.

  • Leandro Mazzei

    Muito bom mesmo, como líder já tive alguns problemas de comunicação e me tornei muito presente para o assunto, é impressionante como erramos e não tomamos consciência de algo mega importante.