gentileza gera gentileza

 

não sei se você já passou pela experiência de errarem seu nome, mas eu lido muito com isso desde criança. as pessoas insistem em me chamar de mariana, às vezes até acertam de primeira, mas acontece também de depois de alguns contatos eu já ter virado mariana. não sofro, claro, mas legal não é e eu sempre corrijo.

sou totalmente adepta ao uber para me locomover em são paulo. faço pelo menos uma viagem por dia e acho que 90% dos motoristas erram meu nome. já tá quase automático entrar falando “isso, mas é marina”. normalmente pedem desculpa, mas essa semana um motorista me surpreendeu…

não bastou ele seguir todo o protocolo de serviço high stakes (perguntou dos vidros, ar condicionado, trajeto, água, bala…) e se desculpar depois de confundir meu nome, ele ainda voltou no assunto e reforçou “olha, desculpa mesmo, errar o nome não dá né, é muito desagradável”.

pronto, me ganhou. o que ele fez demais? manifestou toda sua empatia e gentileza.

Imagina, era sexta-feira 19h, típico momento de happy hour para muitas pessoas e nós ali, eu indo para a academia e ele trabalhando, com uma longa noite pela frente ainda. nem por isso o bom humor e gentileza faltaram, e isso fez toda a diferença no resto da minha noite.

na hora senti o poder da frase “gentileza gera gentileza” e enquanto subia infinitos degraus (estou na fase da escada, quase um vício), comecei a lembrar de outros momentos de gentileza que me concederam nos últimos tempos.

em maio, eu e gabriel fomos para a grécia, uma mescla de viagem de estudos e lazer. fomos participar de um evento e estendemos a viagem… no primeiro dia livre saímos para conhecer mykonos e a noite não tinha como não parar num bar.

três mulheres sentaram na mesa ao lado. passa um tempinho, uma delas me chama. achei que ia me pedir para tirar uma foto delas, mas na verdade era ela que queria tirar uma foto nossa… “vocês são tão fofos juntos, posso tirar um foto para registrar esse momento de vocês?”. pegou meu celular, tirou a foto, nos deu parabéns e saiu.

fiquei impressionada com a naturalidade como ela fez, o sorriso no rosto, as palavras gentis e a atitude de não apenas nos notar, mas fazer questão de demonstrar isso. tirei o chapéu!

lembrei também, e não poderia faltar, do zelador do meu prédio aqui em são paulo.

dia desses cheguei de pinda com mala e sacolas, desci do uber e andei até a portaria do prédio. ele me viu atravessando a rua e o que seria apenas uma manhã qualquer, pareceu uma cena de filme, em que eu era, sem dúvidas, a atriz principal…

“bom dia, dona marina”. abriu o portão para mim (não precisava, eu não estava tão carregada assim e podia abri-lo com o corpo ou com o pé, o que muitas vezes faço por pura praticidade), sorrisão no rosto, já pegou minha mala, subiu as escadas de entrada, ainda abriu a porta do hall, colocou tudo para dentro e finalizou com um “tenha um bom dia!”.

me senti importante! não é todo dia que somos recebidos assim né? pois é, falei isso para mim mesma e logo em seguida pensei “ por que não?”.

isso foi o suficiente para dar um boost no meu dia, que ganhou não só uma super pitada de gentileza, mas de vida e de cores. subi sorrindo e me perguntei, “por que isso não acontece todo dia? e por que não estou todos os dias gerando esse sentimento em mais pessoas também?

assim como a meditação, a gentileza é mais um prática poderosíssima, que mexe com nossos hormônios, saúde, felicidade, mas que muitas vezes acaba sendo negligenciada.

muitas pessoas atrelam tais práticas à espiritualidade e provavelmente isso cria um obstáculo. talvez dalai lama tenha contribuído um pouco com esse falso julgamento quando falou “a minha religião é a gentileza”. mas a verdade é que quando falamos de gentileza estamos falando de felicidade, e cada vez há mais evidências científicas comprovando isso.

de cara, qualquer pessoa poderia falar dos seus efeitos psicológicos. eu mesma já citei três no começo desse texto.

a gentileza é contagiante, assim como qualquer coisa que parte de nós com boa intenção. quanto mais você dá, mais recebe, seja gentileza, amor, sabedoria, oportunidades…

é contagiante (e poderoso) perceber a capacidade que temos em fazer as pessoas se sentirem bem e felizes, e percebemos isso quando elas nos fazem sentir assim também – foi por isso que a empatia do motorista do uber tocou meu coração.

basicamente, o que acontece é que quando a gente dá algo, nosso cérebro entende que é como se estivéssemos ganhando, e o prazer que sentimos faz com que queiramos repetir isso mais e mais. é aí que entra a fisiologia para complementar.

o responsável por isso é o nervo vago, um conjunto de nervos que saem do topo de medula espinal e ativa vários órgãos, como coração, pulmões, fígado e etc. ele está conectado a receptores de ocitocina, popularmente conhecida como hormônio do amor, e segundo steve porges, da universidade de illinois, é o nosso órgão do cuidado.

dacher keltner, autor do livro born to be good e diretor do laboratório de interação social de berkeley, em entrevista a scientific american relata que muitas pesquisas e estudos sugerem que a ativação do nervo vago está associada a sentimentos de compaixão e humanidade.

ou seja, não é espiritualidade (ou pelo menos não só, caso queira tratar assim também), é ciência.

pessoas gentis tendem a ser mais empáticas e assim a gentileza nos dá espaço para vermos as pessoas de forma mais positiva, darmos a elas o benefício da dúvida, não devolvendo na mesma moeda uma falta de gentileza sem antes tentar olhar pela perspectiva dela.

a sensação que eu tenho (e me incluo aqui) é que vivemos num constante estado de escassez, sempre com pressa, sempre com a algo a fazer, um lugar para ir, uma prioridade para cumprir… e assim, sem nem perceber, de repente estamos tratando o outro como inimigo.

lendo assim pode parecer estranho, mas em diferentes graus todo mundo já passou por isso em algum momento. às vezes a to do list ganha tanta importância que o outro se torna um obstáculo. uma ameaça.

nesse ritmo, o propósito da gentileza, que envolve reconhecer os sentimentos e necessidades do outro, ser empático e demonstrar cuidado, perde força, torna-se luxo. é como se as pessoas pudessem ganhar nossa atenção só quando estamos num estado pleno, sem outras prioridades para cuidar.

minha mãe é e sempre foi um dos meus maiores exemplos quando se fala em gentileza a empatia. a típica pessoa que deixa luz por onde passa, que surpreende sempre e faz qualquer pessoa que está por perto se sentir especial. cresci com essa influência e depois a vida me apresentou o gabriel, que eu poderia chamar de sr. empatia.

já eu, sempre fui uma pessoa muito sensível e expressiva, mas alguns valores muito fortes que tenho já me fizeram passar por cima da empatia. ainda falho.

hoje não só me policio para praticar e aprender com o exemplo deles, mas também estudo isso pois faz parte do meu dia a dia, já que tenho uma empresa na qual sou a responsável pela área de experiência (interna e externa) e um dos nossos 5 valores é o “importar-se”. importar-se com cada detalhe, com cada conteúdo, com cada pessoa.

confesso que o melhor feedback que recebo (o meu medidor para saber se estou evoluindo), é quando alguém vem me dizer que estou cada vez mais parecida com a minha mãe, ‘o jeitinho é o mesmo”.  grato elogio <3.

vira e mexe eu sinto com ela o que dacher keltner descreveu como um dos efeitos da ativação do nervo vago: “é como se produzisse uma sensação de calor que se expande pelo peito”. já sentiu isso? se ainda não, dá uma olhada neste vídeo. isso é a gentileza mostrando todo seu poder, não só em quem a pratica ou recebe, mas até em quem tem o privilégio de presenciá-la e assim provar dela também.

darwin já dizia que somos uma espécie profundamente social e cuidadora, que nossa tendência a simpatia é instintiva, envolvente e até mais poderosa que nosso instinto pela autopreservação. mas assim como qualquer músculo precisa ser estimulado para crescer, a gentileza também precisa para se manifestar.

“a melhor coisa que você pode fazer por alguém não é dividir com ela sua riqueza, mas sim revelar a ela sua própria riqueza”. – benjamin disraeli

gentileza gera gentileza.

🙂

 

  • Sandy F

    Lendo o texto fui lembrando de vários momentos que as pessoas foram gentis comigo e como isso realmente tinha mudado meu dia, me fez entender também o motivo de eu tocar um projeto social por tantos anos… Muito bom o texto, Marina. Parabéns e obrigada por fazer minha semana começar tão gentil 🙂

  • Thaís

    Que texto incrível, Marina!
    Com certeza esse post impactou minha vida. De uma forma extraordinária, aliás.
    Sempre fui gentil, daquelas pessoas que preferem agir com gentileza do que estar certa. Às vezes até me questiono como as pessoas podem agir sem essa ação que deveria ser um hábito nas nossas vidas.

    Enfim… Gratidão por compartilhar suas histórias de vida, e nos fazer refletir atitudes.

    Grande beijo,

    Thais.

  • Bianca Holanda

    escrevi um textão pra comentar aqui, mas acabei apagando.
    um dia eu traduzo as palavras num abraço de gratidão!

    <3

  • Lucilene Maidana

    Gratidão Marina… como sempre, trazendo gentis palavras para o início da nossa semana =)
    Abraço! <3

  • Gabriella Lima

    Fantástico!
    Parabéns!!!
    Marininha inspiração sempre!

  • Ana Do Adriano

    Olá Marina, incrível como sinto seu coração bater em suas palavras.
    Se esta era a intenção, parabéns, funciona!
    Além o conhecimento que você sempre nos traz, estas maravilhosas emoções sempre me fazem esperar sua próxima publicação.
    Um doce abraço.

  • Daniel Luiz Vieira Carcavalli

    Olá, Marina!

    Muito obrigado pelas lindas palavras… Esse post veio confirmar o que eu já sentia, mas não sabia explicar, na verdade, há um tempo venho experimentando uma sensação de gratidão enorme, por ser vegetariano, meditar, sinto que isso me causa uma vontade de gerar gentileza, em ser gentil, começando pelo “bom dia”, pelo sorriso no rosto, contagiando com gentileza… Uma sensação IMPAGÁVEL. Amei o texto! bjs 😀

  • Daniele Piske

    Fantástico, imensa gratidão por vc e pelo goffi marininha!!

  • Amanda

    Marina, vim algumas vezes aqui no blog, tudo pela arte. Porém hj foi a primeira vez com tranquilidade, amor e olhos para absorver tudo. Obrigada pela experiência. Foi inspirador.

  • Joyce Mingorance Cavallini

    Gosto muito do jeito que você escreve, e fico contente em ler algo relacionado a uma coisa tão boa pra mim. Grata por me lembrar.