educação ou domesticação? a mistura que hoje diz muito sobre quem somos e o que fazemos

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julho é mês de férias e isso me lembra minha infância. lembra a contagem regressiva que fazia o semestre todo para ir pro acampamento e a animação que sentia quando começávamos a arrumar as malas para ir para a fazenda.

há 32 anos meu pai tem um acampamento de férias para criança e sempre me considerei muito sortuda por isso, pois nunca precisei me preocupar se teria o que fazer nas férias.

cresci solta. na natureza e, ao mesmo tempo, cercada de pessoas. esse era o normal, sempre uma nova aventura, pessoas diferentes e muito aprendizado.

a vida é uma constante oportunidade de auto educação e sempre que lembro da minha infância no acampamento resgato e reforço essa ideia em mim.

ao mesmo tempo, quando olho para fora vejo quanto esse processo de se auto educar é pouco explorado e quase ignorado. a sensação que eu tenho é que nascemos já sendo preparados para entrar na linha de montagem.

descartam a essência, a liberdade, a sensibilidade… tiram tudo que há de potencial dentro de nós e em troca recebemos um manual, “como ser apenas mais um”.

começamos a vida já sendo podados e assim seguimos, sempre pressionados para seguirmos padrões ao invés de buscarmos nossos próprios caminhos. nos ensinam a confirmar o que vem de cima, mas nunca a desbravar o que ainda não nos foi revelado. e aí, quando a gente se dá conta, a essência da educação não está mais aqui.

a nostalgia veio e pensei muito sobre isso esses dias. conversei também a respeito com dois colaboradores da empresa que tem filhos (e uma perspectiva totalmente diferenciada sobre educação <3), sobre a importância das crianças crescerem soltas, livres, alimentando-se de si mesmas e entendendo sua própria lógica, não a do mundo.

esse conceito de auto educação é a base da pedagogia waldorf, que finalmente vem ganhando espaço no brasil:

“não há, basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a auto-educação. […] toda educação é auto-educação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior.” – valdemar w. setzer

ou seja, o mesmo conceito que sem perceber direito eu vivi desde sempre por crescer onde cresci.

tudo, tudo foi explorado durante minhas férias… o pensamento individual, a criatividade, a sensibilidade, a comunicação, o contato com a natureza, a habilidade de expor suas opiniões e se fazer ser ouvindo considerando o outro, e por aí vai…

percebe o que está em jogo? nosso desafio, sobretudo da criança, não deveria ser de adaptar-se ao padrão ou modelo, e sim de aprender a viver com ele, de forma harmônica e construtiva, sem perder de vista sua formação. e isso implica se conhecer e desenvolver suas próprias ferramentas para agir no mundo em direção aos seus objetivos.

no entanto, o que a educação tradicional faz é justamente o oposto…

primeiro ela foca num resultado pré estabelecido e independente do indivíduo, que é desde o início completamente desconsiderado. o foco é sempre o padrão, o controlável, a linha de montagem.

e segundo, em vez de explorar as potencialidades de cada uma mostrando serem elas o caminho para o resultado, enaltece as dificuldades, cria pressão, paranóia e limitações. mata qualquer possibilidade do indivíduo se fortalecer e desenvolver novas habilidades, partindo do pressuposto que ele deve apenas exercer o papel ao qual foi designado.

pronto, é assim que começa o magnífico processo de domesticação, o qual os otimistas (ou alienados) chamam de educação.

se você der um google vai achar na wikipedia a explicação: ‘a domesticação acompanha a história da civilização, sendo benéfica para o desenvolvimento da mesma, porém é extremamente prejudicial à natureza e à ecologia, já que, em contraste com a seleção natural, a domesticação provoca uma seleção artificial de alguns seres vivos em detrimento de outros que o ser humano procura eliminar por considerar hostis à sua sobrevivência. a domesticação, desse modo, é um fator de redução da biodiversidade”.

wow. não poderia haver definição melhor. é esse, exatamente esse o processo que vivemos. e é ele, hoje, o maior instrumento de dominação social.

a domesticação está tão presente e forte que parece ter feito o mundo esquecer que a educação envolve criação e a criação envolve liberdade. e não há espaço para a liberdade onde o arbítrio é a relação causa e efeito, onde as decisões e escolhas não são feitas pelo indivíduo, considerando suas forças, fraquezas e vontades. na domesticação a “causa” é sempre uma pressão externa ao ser.

é assim que vive a maioria das pessoas, sejam crianças ou adultos: incorporando as pressões externas sem que essas sequer passem pelo crivo do questionamento.

a gente nasce e já começa a ser podado, até o ponto em que morre nossa habilidade de criar, se reinventar e ser. verdadeiramente ser.

a arte é deixada de lado, a expressão desvalorizada e os sentimentos anulados. e assim seguimos, na base do certo ou errado, do concreto e palpável, nada mais. desde o primeiro respiro já começamos a ser treinados para o pensamento lógico, para a ação e reação,mas em nenhum momento alguém para para te perguntar o que você sente, qual a sua necessidade, o que diz sua intuição…

e a triste realidade é que assim vão se formando cada vez mais bonecos, personagens e executores. e os artistas vão sumindo, perdendo espaço…

por isso eu volto a reforçar a defesa de setzer, “não há, basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a auto-educação”.

averdadeira educação requer liberdade… liberdade de ser, de querer e de escolher. entre essas escolhas está a de se auto educar e construir, de encontrar caminhos e facilitadores, não domadores.

e ainda a liberdade só é possível quando se tem (ou se constrói) independência. todos nós passamos por um progressivo processo de formação da individualidade pela independência, e começa aí o ponto-chave do que foi a minha infância no acampamento.

o convívio social, num ambiente novo, leve, cheio de estímulos e explorável trabalha essa capacitação pessoal. trabalha a independência, a autonomia, a comunicação, o respeito, a criatividade. esse é exatamente o oposto dos ambientes nocivos e manipulados (e claro, manipuladores) em que nos encontramos hoje, adultos e crianças. é o oposto da linha montagem.

e justamente isso a “educação” tradicional insiste em tirar nós… os espaços para criar! quando você cria você é, e quando você é você entende a necessidade e beleza do outro ser também.

quando falo em educação tradicional não estão falando apenas da ação da escola… é a escola, mas é também a família dentro de casa, as pessoas no local de trabalho, na vizinhança, a mídia, a mídia e a mídia. uma falsa educação enrijecida que permite, em pelo 2016, que a liberdade continue sendo podada, a autoexpressão recriminada e o preconceito tolerado. e isso se dá, basicamente, por dois motivos: incompetência pessoal e inabilidade social.

cada vez menos a gente sabe como é estar em contato com o outro e agir diante dele. cada vez menos a gente sabe lidar com o nossa verdade que só o outro nos evidencia. tudo torna-se uma ameaça para pessoas fracas, que pouco se conhecem e sustentam.

e seguindo essa lógica, a do padrão, vamos cada vez mais fugindo dos desafios, nos escondendo das possibilidades. buscamos todo dia a mesma coisa por medo de lidar com o novo, de se arriscar. a segurança se tornou a arma secreta da domesticação.

e porque eu estou aqui, ao mesmo tempo em que falo de educação, falando também do acampamento? porque acho que essa é a solução para a educação? solução não, mas certamente um caminho. é um dos oásis que temos no meio do deserto, assim como são as escolas waldorf hoje em dia, e outras iniciativas por aí.

é o tipo de coisa que só podemos agarrar e aproveitar. aproveitar a simplicidade e facilidade desses contextos cheio de pluralidade que nos ensinam tanto.

eu aprendi no acampamento, por exemplo, a identificar minhas forças e fraquezas e decidir quando gostaria de usá-las, pensando nas minhas vontades e no sucesso do grupo. pode parecer banal, mas num contexto infantil, a missão de formar um bom time para uma peça de teatro, por exemplo, é diferente da de formar o time invencível no caça ao tesouro (uma das minhas brincadeiras preferidas). aprendi a agir e a recuar.

aprendi também não apenas a respeitar as diferenças e conviver com elas, mas a me interessar por tudo que é novo e diferente, pela perspectiva de outros olhares. isso é um trabalho de empatia e reconhecimento, muito mais natural quando parte de um indivíduo real e inteiro, não de um domado. como eu disse, quando você é fica muito mais fácil enxergar a beleza no outro em ser também.

lembro de uma temporada da qual participaram 4 crianças surdas e experiência não podia ter sido melhor… arrisco dizer que todos os acampantes naquela semana aprenderam a linguagem de sinais. muita diversão e carinho envolveu aqueles dias pois todos ali estavam abertos, dedicados e interessados em entender um mundo diferente, uma forma totalmente nova de experienciar a vida e se expressar.

não porque tentávamos incluir pessoas com diferentes contextos de vida, mas porque estávamos livres num ambiente que estimula, de forma mágica e natural, esse contato consigo e com o outro. que revela o valor de tudo que é novo e diferente.

a domesticação, ainda hoje disfarçada de educação, não permite isso. não permite o ser livre e ser inteiro. não permite o ser único, que se constrói e se educa, que sente e expressa.

não importa sua idade e seu momento… a pergunta que fica é, que papel você esta vivendo? ele é de sua autoria ou, sem perceber, você está apenas interpretando, dia após dia?

e se você tem filhos, será que está os incentivando a buscarem esses espaços de criação?

julho é mês de férias e isso me lembra minha infância. infância me lembra liberdade e isso me faz querer refletir sobre as escolhas que eu fiz e as que eu ainda posso fazer para construir quem eu quero ser.

 

  • Paulo Bottino Teixeira

    Mamá, adorei o texto. Eu entendo um pouco (na verdade muito) desta arte, afinal esses 32 anos foram parte importante da vida de muita gente, você sabe. Você é um dos maiores exemplos que conheço de manifestação e exercício dessas capacidades pessoais que você valoriza: liberdade, criatividade, respeito pelo outro, independência, enfim, vou parar por aqui porque vc é muito mais que tudo isso! Ah, que felicidade conviver com você e com sua arte!!!! Beijos…

    • Marina Teixeira

      Meu herói!
      Obrigada pela oportunidade de viver tudo isso <3

  • Emanuela souza

    Muito bom! Acredito que hoje estamos sendo mais domesticados do que educados. A escola da comtemporaneidade é um instrumento de imposição de padrões sociais, pois cada vez mais estimula a competição e o individualismo aos alunos, que crescem padronizados a esse sistema. Dessa forma,como prova significativa disso podemos citar a constante ocorrência de bullyng no ambiente escolar e consequentemente fora dele também, na forma de intolerância social. Ademais, É uma pena que nem todos enxerguem essa ótica libertadora, autêntica e eficaz de educação,muitos preferem viver nos moldes de uma modernidade liquida, como afirma o sociólogo polonês Zigmum Baumam. Outro ponto que vale a pena salientar, Marina, é que ao ler seu texto eu me lembrei muito da Finlândia, país referência em educação,cujo sistema chega a até superar os EUA em termos de resultados com relação aos melhores alunos,o diferencial de lá é a maneira de trabalhar a educação, que é surpreendente e eles seguem bem esse estilo próprio e libertador de ensinar, realmente conseguem formar cidadãos- seres humanos cheios de ideais.

    • Marina Teixeira

      Perfeito tudo que disse, Emanuela! Mas gosto sempre de pensar em uma educação que começa em casa e vai muito além da escola.
      Buscar esses espaços de criação e liberdade não pode ser algo que depende da escola, e se deixamos ser estamos apenas alimentando o sistema.

      • Emanuela souza

        Verdade, Marina! O ruim é que nem todos têm esse estímulo em casa, né?! Muitos pertencem a famílias desestruturadas e acabam a mercê do sistema alienante das escolas de hoje. E, as vezes, ocorre inversão dos fatores, da escola para casa. O pêndulo se encontra invertido. Você foi privilegiada por ter tido a oportunidade de crescer aprendendo a ser livre e ter seus momentos de descoberta partindo de casa, agora veja, e quem não teve?! Obrigada pela atenção! Já estou amando esse espaço, afinal, tudo pela arte!

  • Vanessa Bueno

    Olá Marina, obrigada por mais uma excelente reflexão. Educar um filho nos dias de hoje, com tanta domesticação a volta não é uma tarefa fácil. Eu tenho uma filha de um ano e meio, e sempre me questiono sobre isso, sobre a liberdade. Mas, o bom é que tenho consciência disso, e tento fazer o meu melhor, pois muitos pais, infelizmente, não tem.

    • Marina Teixeira

      O que está a volta é apenas um detalhe quando se está disposto a fazer bonito, Vanessa!
      Você vai tirar de letra :)

  • Charles Iraja Mota da Silva

    Olá, Marina, tudo bem? Espero que sim com a Graça Divina! Li pela 1ª vez um texto seu e gostei muito! Concordo com seu argumento e ao transcorrer a leitura, lembrei-me do Sir Ken Robbinson em uma de suas palestras no TED (As escolas matam a criatividade?), ele fala exatamente isso, que as escolas “enlatam” seus alunos transformando-os em mãos de obra para o mercado, simplesmente isso! Abraços

    • Marina Teixeira

      Esse TED é muito bom mesmo, Charles!
      Certamente, a escola não colabora (ou só atrapalha rs), mas há muitas outras formas de alimentar nossa liberdade, construção e criatividade 😉

  • Simplesmente espetacular. Um grande show de artigo! Merece ser compartilhado com muitos. :)

    • Marina Teixeira

      :)

  • Diego Souza Paiva

    Olá Marina, tudo bem?
    De forma leve e clara você abordou uma questão muito antiga, mas que exige uma discussão urgente talvez como nunca antes. É necessária uma reflexão de base sobre o que entendemos por “educação” e textos como o seu a põem na pauta do dia. Lembro da famosa frase do Sócrates: “educar é acender uma chama e não encher um recipiente”.
    Meu primeiro filho (ou filha) nasce no final deste ano e espero ser um pai melhor nesse sentido. Obrigado!
    Abraço,
    Diego.

  • Igor Omena

    A educação brasileira está como o saneamento das nossas praias. Porém, esse paradigma está mudando, mesmo que a passos lentos. Como diz o ditado : “Coisas ruins incomodam, mas não perduram”.

  • Vitor Batista

    Muito bom o texto. Estou no último semestre de Letras, e entendo a necessidade da escola ser um local de estímulo à aprendizagem autônoma, e não o lugar do ensino verticalizado, em que o professor é dotado de todo o saber e, portanto, fica incumbido de passar isso adiante “guela abaixo”, sem respeitar e indagar sobre o contexto que realmente faz sentido para os estudantes. E percebo tbm que as soluções para essa questão estão vindo de diversas áreas, e não da educação propriamente dita. Há uma geração de jovens extrapolando a “domesticação” e construindo (online inclusive) esse espaço de produção de conhecimentos. Daí o meu otimismo com respeito à educação, encarada nessa nova perspectiva.

  • Vislei Gonçalves

    Eu diria que a educação está na UTI. Mediante a tantos problemas, impressionante como ninguém (autoridade política) se toca que a raiz dos problemas da nação é a educação, melhor, a falta dela, ao menos em qualidade e sendo entregue da forma correta.