domine o palco, ele é todo seu!

 

há anos que estou longe dos palcos, das luzes e dos olhares de uma platéia.

há duas semanas pude provar um pouco dessa experiência de novo, da tensão e da adrenalina, do aprendizado e da emoção. apresentei minha primeira palestra da vida.  

lembrei dos tempo de ballet. da minha relação com as luzes e do sentimento de imensidão. do nervosismo antes de entrar no palco, dos rituais que eu fazia, das mentalizações em que eu passava as coreografias inúmeras vezes na minha cabeça e me imaginava dançando perfeitamente, cada passo, cada braço, cada posição de cabeça…

lembrei também do meu principal indicador de nervosismo: o sono. sempre foi assim, começava já no camarim e quando eu entrava na coxia, perto de chegar a minha vez, os bocejos começavam num ritmo acelerado.

dessa vez não foi diferente e o frio na barriga foi forte.

não só pela novidade, não só pela emoção que o palco sempre traz, e nem só pelo desejo próprio de apresentar algo encantador… era um evento nosso e isso despertou em mim uma responsabilidade muito grande de orgulhar e honrar meu time, tanto quem me escolheu para estar ali quanto quem esperava pra ouvir o que eu ia falar.

eu estava com saudade dos palcos, ao mesmo tempo que sentia medo dele.

para apimentar ainda mais as minhas emoções, rolava na equipe aquele tom de confiança, o boato de que aquele era o meu lugar e que então tudo seria tranquilo. apesar das boas intenções, isso só me desesperava.

mas o fato é que eu nunca tinha falado em público, por sinal sempre evitei ao máximo essas situações. na escola e na faculdade as apresentações de trabalho eram um pesadelo para mim, essa não era a minha praia, eu gostava de sentir e ser sentida, de me comunicar por movimentos e olhares, não por palavras.

sempre fui muito crítica e exigente comigo mesma… a dança me salvava um pouco disso, me libertava. afinal, quando eu estava no palco não conseguia me ver. então na hora do vamos ver a coisa fluia na maior naturalidade e eu me sentia profundamente feliz.

e ao mesmo tempo que eu não me via, não via a plateia. via apenas muitos focos de luz e um breu de fundo, e isso me trazia a sensação de imensidão, de liberdade e de poder. era muito mais fácil eu me conectar comigo mesma, dar vida ao momento e à minha essência.

é possível dançar sem se ver, mas não dá para falar sem se ouvir. por isso, falar em público sempre foi algo que ligou meu radar do julgamento, da autocrítica.  

então ali esse era meu tormento, ficava me perguntando, “como vai ser falar assim, numa sala nem tão grande, onde vou conseguir enxergar todo mundo que me escuta, onde não imagino ser possível meu sentimento de imensidão? será que o olho no olho vai me desconcentrar, me desconectar?”

dúvidas e medos como os de qualquer outra pessoa que está no campo de batalha, aceitando desafios por saber que neles moram o crescimento e as oportunidades.

dúvidas e medos de quem vai sem estar pronto, por saber que pronto nunca vamos estar.

para melhorar a situação, minutos antes de eu entrar no palco decidimos que eu ia palestrar apenas no dia seguinte. a programação tinha se estendido e isso geraria uma melhor experiência para todos, participantes e palestrantes.  

wow! achava que meu segundo dia de evento ia ser tranquilo, com um sentimento de alívio, “passou já”. mas não, foram dois dias de tensão, dois dias em que só jantei, pois assim como sei o que meu corpo quer dizer quando bocejo, sei que em momentos de nervosismo comer é arriscado.

mas enfim, já que essa era a realidade, como aproveitá-la? tentei entender como as pessoas se preparavam para isso.

o gui palestrou no sábado e passou o dia todo na maior tranquilidade. fui tentar entender “mindset de diversão, esse é o segredo para não ficar nervoso”, ele me falou.

entender eu tinha entendido, mas para mim não fez tanto sentido. enfim, coisas da minha cabeça, mas pensar apenas em diversão me fazia sentir como se eu estivesse ali apenas por mim. preferi trocar pelo mindset de conexão e aí fiquei mais leve.

isso inclusive ia de encontro com o que o gabriel já tinha me falado, para não me prender ao que eu ia ou não falar e apenas mentalizar tudo dando certo, eu conseguindo impactar as pessoas, gerar nelas o sentimento que eu queria gerar. isso foi no  sábado.

domingo ele olhou para mim e falou, “você não precisa entrar lá e ser perfeita, e nem parecer perfeita, tem apenas que ser empática”. deixei entrar também o sentimento e as palavras dele. isso me libertou.  

até então, todos e inclusive o gabriel, com a melhor das intenções, me diziam, “vai dar tudo certo, você vai arrasar”, e isso não passava pelos meus ouvidos como palavras de incentivo, para gerar confiança. pelo contrário, era só mais pressão. me fazia pensar em como o mundo nos cobra o tempo todo isso, que tudo dê certo, que a gente seja incrível, que esteja sempre preparado…

e nessa hora eu me libertei dessa pressão. lembrei também de algo especial que uma vez uma amiga do ballet me falou e que foi muito importante para mim…

“você não precisa estar feliz para dançar bem. só precisa transformar o seu sentimento do momento em movimento e expressão. quanto mais intenso, mais forte quem te assiste vai te sentir”. essa é a vantagem que a arte nos dá… transformar qualquer coisa em expressão e comunicação.

se eu estava nervosa naquele momento não tinha que ficar tentando afastar isso de mim, e sim usar o nervosismo para dar vida e força à minha expressão, à mensagem que eu queria passar, que já estava aqui dentro de mim e que eu só tinha que deixar fluir.  

minha única responsabilidade era, na verdade, ser leve e autêntica. ser eu.

foi o que mentalizei, justamente a conexão. transformei o olhar das pessoas em focos de luz para ficar mais à vontade, me sentir dançando, e criei a energia que eu queria gerar ali.

esqueci tudo que eu estava tentando afastar de mim, porque desencanei de ser perfeita. foquei apenas em usar tudo o que eu tinha para gerar os sentimentos e conexão que queria.

o melhor aplauso é o que vem de dentro, aquele sentimento de missão cumprida, e isso está totalmente relacionado ao que eu apresentei na minha palestra: os dois lados da experiência.

a platéia só vibra e se emociona se quem está no palco está sentido o mesmo por dentro. só há encantamento se for assim, se na origem ele estiver presente.

se eu subo num palco negando meus sentimentos, fica difícil liberar tudo que eu quero e que eu sou. e mais difícil ainda acessar quem me vê. então parei de tentar combater o nervosismo, abracei ele e o transformei em força.

até porque, se ele não estivesse ali, se não estivesse com um friozinho na barriga, seria um indicativo de que o desafio não era grande o suficiente, ou não significativo o suficiente.

por isso, mesmo depois de 10 anos dançando, o nervosismo antes de entrar no palco nunca faltou. e eu gostava disso, me fazia entrar no flow, me fazia voar com mais impulso, conectar com mais intensidade.

toda exposição envolve uma dose de vulnerabilidade, ao mesmo tempo que gera aprendizado e empoderamento, pois antes de se expor você sempre vai passar por um processo de reflexão. a exposição pede que você olhe pra dentro, que pense na sua essência, no que você tem pra passar pro mundo.  

esses foram, sem dúvidas, meus maiores ganhos com essa palestra:

primeiro esquecer todas as cobranças externas, tudo que não é meu, e entender como eu posso cada vez mais abraçar os elementos que tenho em mãos e transformá-los em força, em essência.

em segundo foi ter que parar tudo e olhar para dentro, pensar em quem eu sou hoje e quem eu quero ser amanhã. pensar em como eu posso e como eu quero gerar valor para as pessoas, como somar na vida delas, de forma leve, verdadeira e natural.

e depois de uma semana alucinante e um final de semana bem tenso, eu tive a certeza que eu estou no caminho certo. no meu caminho.

entre falar e ser ouvida por muitos, ou dançar e ser sentida por muitos, sempre preferi a segunda opção. mas esse desafio me ensinou que não importa o como, importa a mensagem.

eu poderia ter dançado, mas na ocasião eu falei, e nada me daria mais prazer e satisfação do que concluir a última palavra e perceber que eu tinha conseguido gerar a conexão que eu queria, ser sentida e tocar, sobretudo meu time.  

e é por isso que eu não canso de dizer… o mundo inteiro é um palco.

o show tem dessas coisas, a gente sobe no palco e já automaticamente começa a ser analisado, e assim é também na sua vida, a cada ação que dá, a cada decisão que toma.

ao mesmo tempo, cada passo seu gera uma reação na platéia. portanto, quanto mais íntegro, verdadeiro e intenso você for, mais os olhos da sua platéia vão brilhar. às vezes a gente arranca dela até suspiros e lágrimas, e esse é ponto máximo da conexão, do encantamento, do resultado.

você é o artista e você escolhe o que quer gerar de impacto nas pessoas. o nervosismo faz parte e é bom que faça, é prova do nosso comprometimento com todo esse cenário e do nível do desafio que estamos abraçando.

no início do evento eu descobri que tinha uma pessoa lá para me analisar mais tecnicamente. não era alguém da plateia, mas como os jurados que me analisavam em todo festival de ballet.  

depois que me apresentei ela resumiu o feedback em um frase: “domine e preencha o palco, ele é todo seu”.

foi o que eu sempre soube. o palco é meu lugar, assim como ele também é o seu. e hoje eu queria deixar essa mensagem…

os desafios vão vir, o nervosismo vai pegar e a crítica vai ser dura, mas não deixe nada te parar, nada tirar sua essência ou te desviar do seu caminho.

domine seu palco, ele é todo seu.

 

  • Fausto Maciel

    Excelente Marina!!! Parabéns pelo texto e pela apresentação!!!

    • Marina Teixeira

      brigada, fausto!

  • Tiago Zoriki

    nossa marinha,

    mas um vez seu texto tocou lá dentro de mim.

    eu era um dos jurados da sua palestra, rs, eu queria muito entender como a hsa funciona, pois eu tenho toda a mesma preocupação com meus clientes e colaboradores, achei sua palestra fantástica e tudo o que você está fazendo na hsa, e com certeza se não fosse você é o gui e a equipe todo, com certeza, vocês não estariam a onde estão, hoje na minha empresa também tem uma concierge pro meus amigos, essa é palavra que eu uso pra falar dos meu colaboradores.

    gratidão, gratidão por você compartilhar seus conhecimentos.

    e por favor continue escrevendo esses textos de muita profundidade e reflexão.

    • Marina Teixeira

      show, tiago!
      espero que tenha tira alguns insights para levar pra sua empresa e pros seus amigos 🙂

  • Vanessa Bueno

    Demais Marina, reflexões valiosas como sempre! Parabéns! Grande abraço.

    • Marina Teixeira

      🙂

  • Danielle Mesquita

    Parabéns Marina! Esse frio na barriga se traduz em responsabilidade, em querer fazer bem feito, te admiro e te digo isso é só o começo….rumo ao TED….
    Existe uma vitalidade, uma força de vida, uma energia, uma rapidez, que são
    traduzidas por você na ação e, como só existe um de você no mundo todo, essa
    expressão é única. E, se você a bloquear, ela nunca existirá por nenhum outro
    meio e será perdida.
    — MARTHA GRAHAM

    • Marina Teixeira

      brigada, daniella!
      e adorei a citação! diz muito 🙂

  • Bruna Tenório Fontan

    Uauuuu q inspirador Marininha!!! Muito obrigada por compartilhar seus sentimentos. Sempre tenho ideias e tiro algo de muito valor para o meu trabalho com seus textos. Obrigada!!! bjs

    • Marina Teixeira

      que delícia saber disso, bruna!
      🙂

  • Bianca Holanda

    sou suspeita pra falar, mas foi incrível.
    o evento, as pessoas, as palestas. a tua palestra… leve. 🙂
    eu, que nem sou integrante da equipe (diretamente, porque tem muito fucking care aqui dentro também o/), me emocionei como uma. porque você e eles também – equipe -, deixaram muito claro a mensagem que deveria ser passada e o jogo que estão jogando.

    • Marina Teixeira

      também sou suspeita porque esse seu fucking care a gente sente demais!
      foi muito especial ter você aqui com a gente, querida!

  • joana ribeiro

    arte em palavras!
    <3

    • Marina Teixeira

      <3 😘

  • Ralph Lemos

    demais! me identifiquei bastante…
    orgulho de tá nesse time ctg hehe
    tmj, mama 🙂

    • Marina Teixeira

      digo o mesmo!
      👊🏼❤️

  • Vicente Tadeu Marchi

    estar no palco é para protagonistas.
    já fiz várias palestras e o sentimento é sempre o mesmo, que só acaba no fim da apresentação.
    parabéns e que venham muitas outras para você.

  • Camila Setuval

    Oi Marina!
    Gostei muito desse texto. Parabéns.
    Estou num momento de mudanças na minha vida. Terminei a faculdade e estou mudando de cidade. e estou com o friozinho na barriga e com medo, igual você sentiu. Mas é como você falou: “se não estivesse com um friozinho na barriga, seria um indicativo de que o desafio não era grande o suficiente, ou não significativo o suficiente.”
    Vai ser um desafio enorme, mas sei que será importante para mim.
    Vou dominar meu palco, conversar mais comigo mesma e tentar me preparar ao máximo, mesmo sabendo que nunca seremos perfeitos.
    Adoro seus textos.
    Beijos ;*

  • Giovan Toledo

    “dúvidas e medos como os de qualquer outra pessoa que está no campo de batalha, aceitando desafios por saber que neles moram o crescimento e as oportunidades.” valeu meu texto! tmj mamá 🙂

  • Elias Pretti de Barros

    2016 me presenteou com mentes saltitantes de boas energias como a sua. Gratidão Mama!

  • Renata Lima

    Marininhaaaa..rsrs….que coisa linda, amei ver isso, precisava disso hoje…espero que em breve eu faça diferença por aí, como vc faz aqui…parabéns! um 2017 maraaaa pra vc <3