como eu superei meu (quase) burnout

 

Esses últimos dias pensei muito no mar.

Não no seu cheiro, nos seus sons ou na sua beleza. Pensei mesmo foi na sua água salgada…

Como toda criança, quando pequena eu adorava ir a praia e me enterrar na areia, construir castelos, fazer barragens e, claro, pegar jacaré. Mas como cresci na fazenda sempre passei muito mais tempo em cima das árvores do que nas águas do mar. O que eu realmente treinava em todas as minhas férias era como escalar cada vez mais rápido. Meu objetivo era um dia bater o recorde do meu irmão e primos, todos mais velhos: 16 metros em 30 segundos.

Por isso, sem prática, lembro de muitos jacarés mal sucedidos que tentei pegar e acabaram num banho de areia e água salgada.

Lembrei esses dias do sentimento de vergonha e frustração que sentia quando pequena e meu jacaré dava errado; o que, na verdade, eu sinto ainda hoje quando vou a praia, arrisco e dá errado: sentimento de estar sendo engolida, de não ter nada sob controle.

Nunca tinha pensado em como o mar é uma ótima analogia da vida, cheio de belezas, mistérios e perigos, mas alguns sentimentos nas últimas semanas me trouxeram a memória essas lembranças.

Já ouviu falar em burn out? Então, acho que eu tive uma espécie disso semana retrasada, ou foi quase lá.

Estou tão imersa e comprometida com algumas coisas, encantada com a minha arte e, em função disso, assumindo tantas responsabilidades, que sem perceber comecei a tomar alguns caldos…

De repente me vi cheia de coisas para concretizar, mas exausta, sem fôlego e sem motivação. Acordei domingo passado como se tivessem sugado toda minha energia e murchei.

Há meses não ficava doente (ou anos, nem lembro quando foi a última vez) e, de repente, peguei na sequência duas crises de gripe seguidas.

Inevitavelmente, com tudo isso veio um sentimento de tristeza, aquela vontade de ficar em casa sem fazer nada e afundar na cama.

Tinha decidido já fazer o esperado: ter um domingo sabático, improdutivo, cinzento. Até que meu anjo apareceu.

O Gabriel estava viajando e mandei mensagem dizendo que tava precisando tirar um dia para mim, não fazer nada e ficar digerindo esse meu caldo. Meio aquele sentimento de precisar viver o luto, sabe?

Resolvi compartilhar isso (uma fraqueza) neste post por apenas um motivo: o esperado era que ele se comovesse e dissesse algo do tipo, “Faz bem, mamá. Você tem trabalhado muito, então tira o dia para você, recarrega suas energias e amanhã você volta com tudo”.

É isso que num primeiro momento a gente pensa né? “Nossa, estou trabalhando demais, preciso dar um passo para trás e me realinhar. Cuidar mais de mim, ir com mais calma para não estourar”.

Seria empático da parte dele concordar e reforçar essa minha primeira interpretação da situação, mas não seria valioso para mim. E como eu já podia esperar, ele fez muito mais do que isso…

“Mamá, não esquece que a felicidade é hackeável. Quanto mais conectada você estiver com você mesma e com mais clareza da sua arte, melhor você vai ser e mais pessoas vai encantar. Então o primeiro passo é olhar para dentro.”.

Daí derivaram mais algumas frases que me trouxeram muito mais paz, calma e força do que se ele tivesse apenas me dado um espaço e concordado com a minha fuga.

Por que entrar no meu casulo, ficar no escuro e me alienar ainda mais de mim se a vida está nesse momento justamente me pedindo mais alinhamento?

Foi nesse sentido que ele me falou muitas coisas… em vez de pegar o dia para não fazer nada e achar que isso me aliviaria, por que não hackear o que estava sentindo?

Por que em vez de fugir de mim eu não poderia fazer o oposto? Meditar, usar técnicas de respiração, me colocar em contato com pessoas que estão conectadas com o que faço, acredito e valorizo?

Por que estava cogitando levar meus pensamentos para cada vez mais longe em vez de trazê-los para dentro de mim?

Que ponto de virado lindo nesse dia!

Olhei no espelho e decidit hackear meu (quase) burn out… tirar sim um pouco da pressão das minhas costas, mas sem me esconder, sem correr o risco de murchar.

Decidi não mais sofrer com a falta de criatividade e deixar o blog de lado por um dia. Decide me ouvir e me nutrir em dose extra nesse dia… Troquei a roupa de ficar em casa, meditei, saí e fui ver gente, compartilhar sentimentos e experiências.

Era domingo mas eu simplesmente não estava com vontade de fazer jejum. Então na volta para casa parei em um dos meus restaurantes preferidos e me presenteei com explosões de sabores. E então, depois de um dia produtivo e de muitas trocas, curti meu silêncio e minha companhia, me observei, me senti.

Meditei no caminho de ida e volta, cheguei em casa com muito mais energia do que quando tinha saído e ainda fiz uma reunião super produtiva.

Não considero que esse tenha sido um dia de dar um passo para trás, mas sim para frente. Não fugi de mim mesma, me encarei. Não foquei no exterior e sim no interior. E esse foi o meu respiro, a minha reconexão.

Pode parecer algo muito simples, porque realmente é, mas dá vontade de compartilhar porque raramente é o que optamos por fazer.

Normalmente optamos por apenas assumir a posição de vítima, por julgar como perigosa essa entrega máxima a nossa arte e optar por dar um passo para trás, achando que assim vamos pegar impulso.

Mais uma vez o Gabriel me mostrou, com poucas palavras, que eu não preciso pisar no freio desde que esteja no caminho certo. No meu caminho. Sim, às vezes é preciso reencontrá-lo, realinhá-lo, e foi isso que escolhi fazer indo para frente e não para trás.

Deu tão certo que senti vontade de escrever esse post. Talvez se eu tivesse ficado aquele domingo em casa, sozinha, sem tantas das cores e amores que alimentam minha vida, todo meu desânimo pudesse mesmo ter ganhado força e evoluído para um burn out.

Mas o que aconteceu foi que ele se transformou num momento de força. Saí de casa corajosa e decidida a ter um bom dia, voltei me sentindo poderosa. E desde então estou muito mais produtiva, ao mesmo tempo em que estou mais tranquila, saboreando minhas responsabilidades e meus desafios.

Senti na pele o clichê de que somos nós que escolhemos o que queremos para nossa vida. Uma decisão pode mudar muita coisa, e quando você decide viver em alta performance isso se torna mais verdade ainda.

Gosto de dizer que viver em alta performance é atingir o estado da arte na vida, não só na sua profissão, mas em todas as áreas. Foi desse conceito que eu esqueci nas últimas semanas, de que tudo que é off trabalho também me potencializa.

Mas rapidamente entendi que não precisaria abrir mão de uma coisa para encontrar outra. Me encontrei onde gosto de estar, na minha arte, na minha loucura, nos meus desafios.

Precisei de alguém para me lembrar que isso é estar buscando o estado da arte.

E como tudo acontece na hora certa, esta semana vou estar vivendo uma imersão disso, de estado de arte.

Hoje começa a high stakes week, vão ser 7 dias indo a fundo no mundo da alta performance, mostrando na prática isso que o Gabriel me mostrou com tão poucas palavras.

Se quiser participar, fica aqui o convite!

E me conta aqui nos comentários também se você já teve algum burnout e qual foi sua estratégia para vencê-lo 🙂

 

  • Luiza Arold

    Não sei exatamente o porquê, mas ontem ficava fuçando meu e-mail de tempos em tempos para ver se seu novo post estava no ar.. E lendo isto agora, me fez perceber porquê também te busco.. Seu texto me confortou e confrontou ao mesmo tempo. Gerou valor sem perder o carinho e atenção nas palavras. Colocou energia no corpo e trouxe paz à mente..
    Obrigada 🙂

  • Lucia Amato Muner

    Marina, toda vez que leio seus posts me emociono. Sempre são super profundos e verdadeiros. Você a cada dia que passa escreve melhor. A sua quimica com a do Gabriel é incrível, um sempre dando força para o outro crescer.
    O seu crescimento gera o crescimento de todos que te acompanham.
    O que mais tenho aprendido com você é saber me revelar para o mundo, porque assim como você eu também sempre fui “ostra”. Mas como diz o Gabriel o que nos faz crescer é quando você sabe gerar valores para as outras pessoas.

  • Priscila Delabetha

    Sensacional Marina! É exatamente assim que eu fiquei nesse fim de semana. E cheguei a me perguntar: “Mas se essa é a minha arte, por que estou me sentindo assim?”. Aí eu abro o e-mail e encontro a resposta! Gerou muito valor pra mim! Obrigada!

  • Matheus Jacobina

    Muito interessante, Marina!!! Eu já me vi em vários momentos assim.. de querer me isolar e “viver o luto”, como você mesma colocou. Acho muito legal essa abordagem ativa que o Goffi plantou em você nesse dia.. mas ao mesmo tempo, fico pensando se a “abordagem” passiva, de se recolher passivamente, também não possa ser de toda ruim. Vi que foi muito bom pra você esta atitude de recobrar a energia e “não se render”. Mas será que o momento de solidão, mesmo passivo, pode ser também realinhador? Mesmo que subconscientemente? Estou pensando, mas não encontrei uma resposta. Acho que só a experimentação e a busca pelo conhecimento de nós mesmos pode trazer alguma resposta. E mesmo assim, pode ser inconclusiva. Pois um dia a abordagem ativa pode ser melhor, mas a passiva pode também ser benéfica em outros momentos. Que viagem! Hahaha
    Anyway! Amo textos assim. Que me fazem pensar. E o seu blog é isso! Parabéns pelo artigo!

  • Parabéns, Marina. Este teu conteúdo me lembrou uma parte de um livro (Vença o Tigre). Observe que você buscou alguém que confia, para lhe ajudar no seu questionamento interno. E se esta pessoa tivesse concordado com a sua voz interior (o seu Tigre) provavelmente a sua postura e atitude teriam sido outra. Isto mostra que as vezes precisamos de vozes contrarias a nossa voz interior. Vozes contrarias a voz do nosso Tigre que quer nos proteger do incomodo que as mudanças e a busca por algo novo nos trás. Bela reflexão a sua. E espero que isto modifique a sua forma de encarar essa voz do Tigre, quando ela surgir em outros momentos. Muito obrigado.

  • Adriana Pestana Greenhalgh

    Olá Marina! Muito bom ler e saber que não estou sozinha rsss… passei por isso semana passada e tbm busquei apoio no meu marido que gentilmente me falou o que eu precisava ouvir e pensar..Sabe, sentir isso às vezes é bom para conhecermos a força que temos dentro de nós mesmas e o quanto nos afastamos do que realmente interessa. A meditação me ajudou muito assim como encontrar amigas queridas e ganhar um abraço, isto realmente me trouxe de volta. Texto lindo e bem escrito, isso também me reconecta sabia? Me alimento muito com seus textos: parabéns e continue!!!

  • Fernanda Marcello de Oliveira

    Muito legal, Marina! Adorei o conceito de “felicidade ser hackeável”, afinal, é tudo questão de perspectiva e de como encaramos as coisas, certo?!

    Me identifiquei pois, essa mesma semana, decidi ir passar a semana inteirinha isolada em uma casa vazia da família em um condomínio ecológico deserto para tentar fugir de algo que estava atrapalhando minha produtividade e me impedindo de focar com força total no meu mestrado…

    O engraçado é que, agora no retorno, consegui perceber que fui lá p/ fugir de algo, e quando cheguei percebi que esse ‘algo’ tinha ido comigo. Era eu mesma! rs

    Foi válido e foi um tempo bom p/ ficar comigo mesma… não estava encarando como algo depressivo nem nada… Mas o legal, é que me fez perceber que eu não precisava ter ido até lá p/ fazer as coisas que tinha em mente… p/ refletir e focar. Que não era uma questão do local físico onde eu estava.

    Que é uma questão de eu finalmente encarar os fatos, me voltar p/ dentro, como vc mesma disse; resgatar os “porquês” do que estou fazendo, p/ me relembrar do que realmente é o mais importante: a expressão da minha arte! 🙂

  • Nathália Cenciareli

    Meu Deus! As vezes parece que você escreve para mim haha Estou passando por isso hoje e não podia deixar de comentar e te agradecer por dividir as suas experiências de uma forma tão única, gerando tanto valor! As suas palavras vêem me salvando muitas vezes, muito obrigada Marina! 🙂

  • Caroline Cury

    Isso foi muito importante para mim, e para muitas pessoas q as vezes, têm o burnout e se refugiam…
    obrigada por essas pilulas de arte que tanto me fizeram bem * -*

  • Ailén Roberto

    Marina! obrigada por dividir sua experiência, estou lembrando das diversas vezes que tive um burnout :O

  • Paula

    uau Marina! que texto lindo! Ler ele me soltou, me vi muito nessa situação e faz algum tempo que venho modificando isso, bem como você fez nesse dia, e que modificar o nosso estado de espírito é mesmo hackear a felicidade, é nos cercarmos de coisas que alimentam e nutrem a nossa alma!
    Me fez lembrar das minhas aulas de canto, quando tenho que atingir uma nota mais aguda e a minha professora fala apenas: ‘se solta, vai sem medo’, afinal quem disse que precisamos pisar no freio? a gente só tem que ir, de frente, encarando nós mesmos e que se for para pisar no freio, precisamos necessariamente de um dia triste, cinza e murcho? ou é mais um reealinhamento e não pisar no freio? enfim, gratidão por dividir teus pensamentos 🙂 sucesso! beijão

  • Gilmar Castilho de Lima

    Sempre sinto isso! Ando há cerca de dois anos estudando para concursos e sempre que faço e reprovo dá de imediato uma vontade de parar/desistir e aceitar o acaso que vida der. Mas minha companheira sempre me faz lembrar que Vitória so consegue quem persiste. É preciso sempre nos reciclarmos, criar novos “eus” a partir dos “eus” velhos.

    Parabéns pelo texto.

  • Muito bom o texto, Mamá!

    Ultimamente, tenho procurado entender melhor sobre Medicina Germânica (ou Nova Medicina), pois fiquei absolutamente encantada depois de uma consulta.

    O ponto crucial dessa vertente é que doenças e sintomas não são problemas, mas sim curas. É a forma que nosso corpo encontra de resolver algum tipo de conflito, é como ele expulsa emoções e sentimentos que não nos fazem bem.

    Então que bom que você ficou gripada duas vezes! Foi dessa gripe – seguida da sua forma de encarar o problema – que surgiu uma Marina ainda mais poderosa. 🙂

    Beijos!

  • Bianca Holanda

    acho que esse post tava só esperando pra ser lido na hora certa. 🙂
    semaninha difícil…
    texto leve e super valioso! vou lembrar muito bem dele.
    thanks again, mamá!

  • Joyce Mingorance Cavallini

    Nunca tinha olhado por essa perspectiva. Fez todo o sentido para mim, com certeza lembrarei desse post quando passar por situações parecidas novamente. Grata!

  • Giovanna

    adorei essa perspectiva!!!

  • Lygia Vallo

    Tive burnout até o dia que começou a highstakesweek… Passei o ano de 2015 lutando com o meu trabalho que estava tomando rumos totalmente avessos do que acreditava (mas não percebia)… Resolvi mudar de seção dentro do meu trabalho em 2016 depois de muitas crises de choro e rompantes de irritação. Achei que era a solução, e realmente acreditei nisso, até começar o curso e foi então que lembrei de tudo que me motivava… a forma de educação que realmente acredito… a minha arte! Me escondi durante meses na minha casa, achando que recuperava as forças! Agora estou no caminho, buscando as pessoas e coisas que alimentam a minha arte! #gratidão

  • Magda

    Uau Marina! Que texto lindo!!! Com certeza escrever é sua arte! Eles me levaram a uma autorreflexão de imediato, precisava muito ter lido isso. Gratidão imensa por ter encontrado o highstakesweek!