o que eu reaprendi sobre a arte com marina abramović

marina

“eu sonho minha pintura e então eu pinto meu sonho”- van gogh

o que é arte para você?

beleza? criação? expressão?

desde que comecei o blog a ideia de arte que trago aqui vai muito além daquilo que  convencionalmente chamamos de arte (música, pintura, teatro…). até escrevi aqui no sobre do blog que eu falo de uma arte “que não tem limites, não tem regras, não tem contornos. é o que você escolheu fazer da sua vida, com paixão e excelência”.

mantenho que o que disse, mas hoje tenho algo a somar.

há algumas semanas fui presenteada por Marina Abramović com seu filme “espaço além – marina abramović e o brasil”, que relata sua jornada espiritual pelo interior do brasil, passando por 6 estados brasileiros em busca de processos de cura, de pessoas que tivessem uma energia diferente e de “lugares de poder” no brasil.

é um registro etnográfico de sua apropriação artística e humana e fui presenteada com cenas e reflexões que me fizeram repensar a arte. a arte e o artista. e com uma frase, em especial, nos últimos minutos do segundo tempo…

para dar contexto, marina (ela) nasceu na sérvia e na década de 70 iniciou sua carreira como artista performativa, ainda hoje em atividade. a essência de seu trabalho sempre foi o compartilhamento da experiência entre o público e o artista.

a performance surgiu como um desafio à pintura. tínhamos então algo mais complexo que não se prega na parede. um tipo de arte que usa o corpo, e no caso de marina, para expressar opiniões que podem ser violentas e provocantes.

sua arte não tinha limite algum, ela desafiava o próprio corpo e assim, também, os limites e a natureza do público.

chamada de louca em quase toda sua trajetória, ela demorou para ser compreendida (e talvez ainda nem o seja) e reconhecida como artista. conta que por muito tempo era questionada, “por que isso é arte?”.  

eu respondo com outra pergunta… o que é a arte se não a revelação da natureza humana?

não estou aqui para falar de marinas, mas do que esta, em especial, nos faz parar para pensar e sentir. para falar da arte que essa artista revela.

em uma das cenas finais do filme ela diz, “a arte é um portal (…) não precisamos de arte na natureza, precisamos de arte nas cidades”. isso fez virar uma chavinha aqui.

é tão óbvio, não é? porém eu nunca tinha verbalizado isto, talvez nem nunca tenha pensado desta forma. aquele mal que gente tem de não explorar o óbvio e junto com ele deixar tanta coisa escapar…

mas é exatamente isso. para e pensa um segundo… quando foi que, em meio a natureza, você foi em busca de arte?

a natureza já é arte e por isso ela não pede que você crie nada, apenas que seja.

a arte nos obriga a reinventar, a quebrar regras e trazer sempre algo novo, diferente, inédito. o artista vive nessa constante busca por reinvenção, por fazer sempre algo novo e melhor, ainda que esteja fazendo a mesma coisa.

o artista é sempre obcecado por sua arte, trabalha nela o tempo todo, por prazer e por necessidade. ele não a abandona nunca, não a deixa de lado quando vai para a casa… a arte não pode esperar o dia seguinte.

o artista é insaciável porque a arte é isso, a reciclagem do corpo e do espírito humano. a destruição que revela e então constrói. reconstrução.

a natureza vive esse ciclo… nunca estática, ela renasce a todo momento. por isso você nunca precisa de arte quando está na natureza, ela já é o portal e te transforma em arte. Seu ser em expressão, aberto e sem limites.

o nome do blog, tudo pela arte, nunca foi referência a arte tradicional, pois eu acredito que somos todos artistas e que qualquer coisa pode ser arte. a sua é aquilo que te faz transcender, ser mutante, ser sempre novo… acompanhar o ciclo, como a natureza.

não precisa ter estética para ser arte, precisa apenas ser real, revelador e necessário. isso é o que naturalmente cria o belo. e aí voltamos ao que digo desde o começo, “é o que você escolheu fazer da sua vida, com paixão e excelência”.

o artista nunca sobe no palco aceitando fazer uma performance pior ou igual a anterior. ele precisa se superar a cada passo, pois essa é a sua essência: a reconstrução. se ele para, sufoca. esse é o ciclo, o mesmo que a natureza nos mostra.

agora, se apreciamos tanto essa essência do artista e da natureza, porque aceitamos acordar e começar todos os dias sendo iguais (ou piores) ao que fomos no dia anterior?

a arte nos faz pensar. Nos faz parar, olhar, sentir… e pensar!

isso a faz ser libertadora, faz transcender. e por isso ela já  foi censurada em tantos momentos da historia (e ainda é). ela tira as vendas, tanto de quem faz quanto de quem recebe, e assim se torna uma ameaça para aqueles que tentam dominar o pensamento do outro, ou para os que abrem mão de governar os próprios pensamentos.

domingo passado fui com meus pais e o gabriel para campos do jordão assistir a orquestra sinfônica do municipal de são paulo. a apresentação foi no auditório claudio santoro, lindo e nostálgico.

lindo porque ele divide com o museu felícia leirner uma área de 35 mil metros quadrados, remanescente da mata atlântica. a beleza e energia do local são tocantes, e é impressionante, o céu lá está SEMPRE azul e sem uma única nuvem no céu, nunca o vi de um jeito diferente.

nostálgico porque lá acontecia um festival de ballet do qual participei por muitos anos na minha adolescência. dancei muito naquele palco, fiz muitos piqueniques naquela natureza e tirei muitas fotos nas esculturas que compõem o acervo do museu.

a experiência foi linda, me senti anestesiada por uma hora e meia, enquanto o maestro, em especial, transcendia magnificamente. era ninguém menos que eduardo strausser.

estava ali a arte fazendo seu papel: sendo portal, dos músicos a da plateia.

no caminho de volta o gabriel comentou no carro, “impressionante né, se as pessoas tivessem mais contato com arte elas seriam mais sensíveis, mais conscientes, e assim teríamos menos violência, menos ignorância, menos desrespeito”.

bingo. é por isso que marina (ela)  estava certíssima quando disse que a arte é um portal, e é por isso que digo que a arte é muito mais do que estética, por mais bela que ela possa ser.

quem precisa de arte (e muita arte) são as cidades, a natureza dispensa qualquer esforço de nossa parte. quem precisa de arte são as pessoas que andam sem olhar, que vivem sem sentir, que acordam para serem as mesmas e que executam sem transcender. todos que existem, mas não são.

a arte sempre conecta e ensina, e é por isso que ainda que você não aprecie o trabalho de marina abramović, é impossível passar “ïleso” pela arte dessa incontestável artista. ela te faz parar e pensar, ainda que o resultado não seja prazeroso. é arte, na sua mais pura essência e forma de expressão.

a performance é uma questão de estado mental, diz ,marina (ela). a arte não está apenas no resultado do trabalho do artista; está, primeiramente, na mente dele, diz marina (eu).

há algumas semanas vivi esse encontro de marinas e isso só comprovou o porquê meu lema é tudo pela arte e porque eu trouxe isso para o blog: para tornar acessível para qualquer um o que muitas vezes pensamos ser privilégio de poucos.

não importa qual seja a sua arte, o que você escolher fazer com a intensidade e entrega de um artista, importa apenas que viva isso todos os dias, sem limites, sem regras e sem contornos.

sem medo ou vergonha de ser insano.

você não precisa ir em busca da natureza para se sentir e ser, para respirar arte. ela está aí, dentro de você, basta alimentá-la diariamente e criar formas de dar vazão a ela.

“a arte permite que a gente se perca e se encontre ao mesmo tempo – thomas merton

este é seu maior poder. não importa o que você, faça como um artista.

 

  • Claudio Maidana

    Salve Marina.

    Não conhecia a Marina Abramović, já adicionei aqui nas minhas referências.

    Fui impactado duplamente por esse texto.

    Duas marinas, duas artistas mais duas pílulas vermelhas. Menção ao filme Matrix “ Se tomar a pílula vermelha conhecerá a verdade que está por detrás do mundo que julga ser real.”

    Esse refinamento Vida versus Arte eu aprendi lendo seus textos, e a cada vez que passo por aqui me encontro mais dentro desse conceito.

    É impressionante como a arte não precisa ser justificada, você faz por que você ama aquilo e quer fazer da melhor forma SEMPRE. Não importa se vão te chamar de insano ou algo do tipo, depois que você atravessa o portal e encontra o flow a sua alma anseia por mais disso.

    Gratidão por todo o compartilhamento do texto e por nos ajudar a encontrar cada vez mais o artista que habita em nós.

    Fraternal abraço.

    • Marina Teixeira

      Esse é o objetivo, Claudio, e fico feliz em saber que toda vez que passa por aqui consigo contribuir um pouquinho com isso!
      Como está o Prosa?

      • Claudio Maidana

        :)

        O Prosa esta caminhando com passos de bebê para tomar impulso. Estamos quase todos os finais de semanas e damos alguns intervalo para organizar melhor os processos. O Feedback de quem passa por aqui é sempre muito gratificante, por mais que não esteja tudo da forma como queremos, ter inaugurado dessa forma (honrado o prometido no palco do MUX) nos fez sair da zona de conforto e acreditar ainda mais nesse projeto.

        Visionar o que o Prosa vai se tonar para nós é sempre motivo para nos sentirmos gigantes .

  • Joyce Mingorance Cavallini

    “Você não precisa ir em busca da natureza para se sentir e ser, para respirar arte. Ela está aí, dentro de você, basta alimentá-la diariamente e criar formas de dar vazão a ela.”
    Mas foi parando pra observar a natureza que consegui me sentir parte integrante dela, e então toda a visão mudou, e hoje eu sei que eu não preciso ir em busca dela, porque eu sou a natureza, e isso me fez adquirir uma sensibilidade muito maior do que eu pude imaginar, e assim alimento diariamente esse sentir. =) Grata!

    • Marina Teixeira

      <3
      lindo!

  • Gabriel

    Olá Marina, curti o texto, apesar de acreditar que sua visão de arte é um pouco infantil (no bom sentido do termo) e que você se contradiz um pouco nas definições. Vou responder sua pergunta:

    o que é a arte se não a revelação da natureza humana? (na minha resposta abro para a natureza como um todo, considerando o restante do seu texto)
    A arte é muito mais que a revelação da natureza humana, e jamais poderia se conter em ser apenas isso, a arte tem sua função (é preciso analisar o contexto histórico da arte e do artista), as vezes nos trazendo, as vezes nos afastando da natureza, transformando, diferenciando, ou até mesmo mudando de foco, saindo de nós e da própria natureza. Mas de qualquer maneira, arte é criação, o que nos retira do estado natural, do estado de natureza.

    • Marina Teixeira

      Oi, Gabriel

      Sim, a arte pode ser bem mais abrangente. Eu mesma, às vezes olho uma linda flor no meio das ruas de São Paulo e digo “pura arte”.
      mas o que eu falo aqui, o conceito de arte que dá nome ao Tudo pela Arte, que tem a ver com fazer e viver a sua arte, é outro 😉

  • Heloise Amorim

    PO, AMEI!!

    • Marina Teixeira

      :)
      <3

  • Alice Viviani

    Lindo! Apaixonadamente envolvido com tudo que vê, está no seu ser , como respirar “Tudo pela Arte”

    • Marina Teixeira

      <3 <3

  • Pâmella Paes

    Exatamente isso!!!
    Arte é um portal!

  • Júlia Matelli

    Inspiração para começar o dia! =)
    Marina, seus textos me fazem realmente bem! Hoje resolvi passar por aqui antes de começar a trabalhar justamente para trazer um pouco de leveza e também motivação para meus projetos paralelos.
    É engraçado que você traz um conceito de arte que venho acreditando e incluindo na minha rotina cada vez mais, em tudo. Eu vou ser artista em tudo que fizer. Aproveitar o máximo da experiência para trazer cada vez mais excelência.
    Acho que estas duas últimas frases representam bem a mensagem que você tem me passado.
    Obrigada!